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O Homem Cordial

Luiz Zanin Oricchio

04 de abril de 2015 | 10h58

As relações humanas no Brasil parecem ter chegado ao fundo do poço. Para comprovar, basta uma rápida olhada nas redes sociais, mas também na seção de cartas dos jornais ou na própria rua. Nem sombra do “homem cordial” de antigamente, essa leitura ingênua de Raízes do Brasil, obra-prima de Sergio Buarque de Holanda. O brasileiro, hoje, é tudo, menos cordial. Tornou-se um ser belicoso, desprovido de senso de humor, disposto a sair na porrada à menor provocação. Ou mesmo sem provocação alguma.

Tudo se deve à polarização política? Talvez. Mas pode ser que essa radicalização não explique tudo.

Quando eu morava na França, brincava com meus amigos franceses: “Vocês têm um país maravilhoso, com história e cultura incríveis, lindas cidades, tecnologia, vinho, queijos e livros fantásticos, arte, têm o Louvre, têm Paris. Têm de tudo. Mas não sabem viver”. Em favor do Brasil, eu alegava um savoir vivre que, a meu ver, os tensos e agressivos franceses (parisienses, em particular) não tinham. Esse know how da boa convivência era o que mais me fazia falta no exterior. Voltei em busca da nossa malemolência, nosso humor, nossa alegria. Nossa cordialidade.

Hoje, me parece que tudo isso sumiu do mapa. Vejo-me em meio a uma sociedade cruel, que não sabe sequer respeitar a morte ou um momento de dor alheia (haja vista algumas reações nas redes sociais à morte do filho de Alckmin). Mas também se espoja na reafirmação de preconceitos, briga no tráfego, insulta mulheres, pede golpe militar, etc. e etc.

Outro dia, pensando nisso, me dei conta de que tempos atrás vivíamos muito na informalidade e que dela vinha esse sentimento confortável de convivência. Dávamos sempre um jeitinho, contornávamos as coisas e, desse modo, as relações se azeitavam. Resolvíamos à nossa maneira e nem sempre da forma mais justa para todos. Daí a “lhaneza no trato”, de que fala Sérgio Buarque.

Bem ou mal, o Brasil foi se institucionalizando. As relações passaram a ser mediadas de maneira mais impessoal (na forma da lei). O que não tornou o país mais justo, mas apenas mais rígido. Nesse caminho para a modernidade (leia-se, para o mundo hiper-capitalista e consumista pós Muro de Berlim), as relações crisparam-se.

Nem tudo é ruim. Grupos minoritários afirmaram-se e passaram a exigir seus direitos. Atos racistas ou sexistas, explícitos ou disfarçados, antes tolerados, agora são denunciados, confrontados e podem dar até em processo. Seria ilusório pensar que essas afirmações se dariam sem reação contrária.

Tem esse lado. Quer dizer, a crispação pode também ser sintoma de que algumas peças estão sendo colocadas em seus lugares de direito e isso causa um mal-estar generalizado. Em especial por parte daqueles setores da sociedade que se julgam sem o dever de prestar contas a ninguém. Houve também um dado econômico, uma inserção social intensa nos últimos anos. Não interessa discutir aqui se foi apenas pelo consumo ou se é estável ou instável. O fato é que gente que antes “conhecia o seu lugar” agora pode ser vista nos shoppings ou nas salas de espera dos aeroportos. Tudo isso cria tensão. Um frisson raramente confessado, porque afinal não pega bem afirmar preconceitos.

Enfim, tudo muda na sociedade brasileira e existe uma tensão evidente entre quem deseja que de fato mude e quem se sente desconfortável e inseguro com essas mudanças. Mas existem nuances e posições intermediárias entre essas posições, o que dá ideia da extrema complexidade do momento que atravessamos. De toda forma, há uma transformação em curso no Brasil. Ou várias mudanças ensaiadas, contraditórias entre si, o que gera essa profunda sensação de mal-estar.

Aquele Brasil solar e gentil, com o qual eu sonhava no inverno europeu, talvez não exista mais. Vejo restos dele quando ando por aí. Ele sobrevive, fora dos grandes centros, em forma larvar.

Talvez seja preciso, um dia, criar um museu da cordialidade brasileira, como se criam museus para espécies extintas.

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