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O Guardião

Luiz Zanin Oricchio

18 Novembro 2006 | 18h37

A idéia de base de O Guardião é uma sensação de estranheza. Quem são esses tipos que se dedicam à proteção alheia, anulando-se a si mesmos? Diz o diretor Rodrigo Moreno que se inspirou num fato real. Namorava uma moça cujo pai tornou-se ministro da Saúde da Argentina e assim passou a deslocar-se com guarda-costas. Um dia foram a um restaurante e Moreno seguiu no carro dos seguranças. Almoçando, via aqueles homens em pé, concentrados em seu trabalho, sem se distrair ou perder um detalhe do que se passava em volta. A estranheza da situação foi um estímulo, e o filme nasceu dele.

Lógico, toda situação, vista do exterior, é passível de estranheza. As ações humanas só adquirem sentido quando contextualizadas. Mesmo assim, o artista pode explorar condições que lhe pareçam particularmente inusitadas, como esta em que uma pessoa é paga para defender com o próprio corpo o corpo alheio.

Para desenvolver sua idéia inicial, Moreno investiu mais nos silêncios que no discurso. Trabalha com um personagem calado e denso, opção facilitada pelo fato de ter escolhido para interpretá-lo um magnífico ator, desconhecido no Brasil mas famosíssimo na Argentina, Julio Chávez. Esse trabalho na introspecção é característica do bom ator, ou, pelo menos, de um tipo de bom ator. Ele diz muito sem precisar de diálogos, ou mesmo de expressões faciais muito marcadas e evidentes. Trabalha na sutileza e o que deseja passar chega até nós também de maneira sutil. E, portanto, mais eficaz.