As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O grande segredo *

Luiz Zanin Oricchio

18 de dezembro de 2012 | 09h37

O Corinthians começou o jogo contra o Chelsea já vencedor. 95 minutos depois, estava consagrado. Mesmo se perdesse, e voltasse ao Brasil como vice, já teria dado exemplo raro de recuperação e restruturação. Campeão, torna-se uma espécie de paradigma, referência digna de ser emulada pelos outros clubes. Modelo difícil de ser seguido, diga-se, porque esse Corinthians que veio da série B, tornou-se campeão brasileiro, da Libertadores e do Mundo, na sequência, dificilmente pode ser imitado em todas as suas qualidades. O candidato a fazê-lo precisaria, para começar, ser detentor de torcida superior a 30 milhões de pessoas. Feito só igualável pelo Flamengo.

O que faz um time ter uma torcida desse tamanho? Dou um docinho de coco a quem me fornecer uma resposta razoável. Sabe-se que um time vencedor faz sua torcida crescer. O São Paulo é um bom exemplo recente. Em épocas favoráveis, o Palmeiras viu sua torcida aumentar. O Santos ganhou adeptos com times jovens e ídolos como Robinho e Neymar. O paradoxo do Corinthians foi ter crescido, de maneira exponencial, mesmo na seca mais ingrata, quando não ganhava nada e era humilhado por adversários. Florescia na aridez, como cacto no deserto. E, quando chegou a época das chuvas, inverteu o paradoxo e não parou de brotar. Esse é um dado particular, mística difícil de ser imitada. Que outra torcida levaria tantas pessoas até o lado oposto do mundo, a ponto de transformar Yokohama em sua casa? Então, no quesito torcida, deixemos o Corinthians com sua glória única. Só nos resta admirar e aplaudir.

Outras coisas, no entanto, podem servir de exemplo. Se não é qualquer time que conta com um poderoso ex-presidente como aliado, está ao alcance de todos adotar medidas de bom senso, como manter no posto um bom técnico, mesmo após uma derrota dolorida. Hoje todos reconhecem que a permanência de Tite depois da derrota para o Tolima foi pedra fundamental para a conquista do Mundial de Clubes. Quem apostou, na época, que ele ficaria? Ninguém que eu conheça.

Outra coisinha: o Corinthians mostra como é importante a manutenção de um elenco base. Não adianta nada montar um grande time se você tiver de desmanchá-lo no meio do ano e então recomeçar do zero. É um trabalho de Sísifo, os times nunca ficam prontos. O Corinthians está pronto há muito tempo e colheu os frutos dessa maturidade e permanência. Outra mutação: preservou a raça como parte da tradição e atualizou-a em rigor tático, o que é outro mérito de Tite.

Outro dado interessante para meditação dos rivais: o Corinthians nos lembrou que o futebol é esporte coletivo. É preciso montar uma equipe homogênea para ter sucesso. Um craque só não faz verão, como parece pensar o Santos, que deposita todas as suas fichas apenas em Neymar. Se o gênio não tiver com quem jogar, nada feito. Se Pelé não tivesse ao seu lado jogadores extraordinários teria realizado aquela carreira sem comparação? Claro que não.

O Corinthians é um todo. Um se destaca num jogo, outro na partida seguinte, mas é o conjunto que ganha ou perde. Esse é o “segredo”. Que, aliás, não é segredo para ninguém.

 

 * Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.