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O grande sedutor

Luiz Zanin Oricchio

03 de agosto de 2011 | 09h34

O imigrante austríaco Max (Otto Tausig) é escritor, tem quase 80 anos, sofre da próstata e não parece em nada um modelo de Dom Juan. Mesmo assim, tem vida amorosa das mais movimentadas. A tal ponto que, ao viajar para uma palestra, coloca em risco o namoro, estável, com Reisel (Rhea Perlman), uma ciumenta de meia-idade. Max é um perigo. Pelo menos em sua imaginação (e na de Reisel), e também nas histórias que escreve.

O enredo é retirado de contos de Isaac Bashevis Singer (1902-1991), nascido na Polônia e radicado nos Estados Unidos, onde publicou sua obra. Em 1978, Singer ganhou o Nobel de Literatura. O Amor Chega Tarde, banhado em fino humor judaico, tem como origem três histórias curtas que, misturadas, dão origem à trama. Acima de tudo, mantém uma relação de afinidade com o espírito do texto que lhe serve de ponto de partida. Conserva a inteligência que não cede ao exibicionismo, o tom discreto porém intenso, a melancolia que jaz como travo na contraluz de situações cômicas.

Em sua viagem, o suave mas impetuoso Max Kohn, encontrará sucessivamente uma camareira hispânica, Esperanza (Elizabeth Peña), uma fogosa ex-aluna, Rosalie (Barbara Hershey) e uma problemática viúva, Ethel (Tovah Feldshuh). Enquanto isso, terá de administrar, a distância, o ciúme violento de Reisel. Não é pouca coisa nem tarefa das mais fáceis. Ainda mais quando a história vai se complicando com a intrincada rede de personagens que se apresenta ao universo do escritor – seja na vida real, seja na fantasia da escrita. Se o escritor, como o poeta, é um fingidor, o fato é que Max sente deveras as complicações amorosas que finge em sua literatura, ou que o acometem no ramerrão da vida real. Como distinguir uma da outra? E afinal de contas, para que fazê-lo?

O filme, dirigido de maneira sóbria pelo alemão Jan Schüte, mantém a leveza que a história pede. Apesar de a trama se passar em dois planos (o “real” e o imaginado), não apela para complicações comuns nesse tipo de estrutura metalinguística. O espectador passa pelos níveis diferentes sem sentir os degraus e vai subindo a escada sem sentir cansaço. Em suma, vai apenas sendo conduzido por uma boa história, muito bem escrita e interpretada, em especial pelo ator principal. Otto Tausig é um mestre da comicidade ambígua e da interpretação interiorizada. Faz do mínimo de expressão um máximo de impressão como apenas os grandes atores sabem. E, entre estes, apenas os mais experientes. Otto dá vida a esse Max cômico, porém pleno de humanidade. Cheio de drama pelas bordas do humor.

Como este quase octogenário se torna um sedutor para as mulheres? Simplesmente sabendo ouvi-las, coisa que, como sabe qualquer aprendiz de psicanalista, é arte das mais difíceis e requer longo aprendizado. Falar é fácil; escutar é o grande problema. Dê uma espiada ao seu redor: todos querem falar, ninguém deseja ouvir o outro. Tradução: ninguém quer saber do desejo do outro, enquanto estiver ocupado com seus próprios desejos, ou seja, o tempo todo.

Daí o segredo de Max, que ele usa sem qualquer malícia. É um homem da inteligência e da imaginação. Quando não pode fazer uma palestra, escreve uma história, a mais comovente de todas. Carente ele próprio, sabe escutar a carência alheia. Mais que sedutor, é um humanista. Um belo tipo, diga-se. Nesse filme um tanto retrô, reafirma-se que a grande questão é o individualismo extremo da babel contemporânea. Ninguém ouve, ninguém entende os outros, estamos sós quanto mais pensamos ser gregários e viver em comunidade.

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