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O gol que Pelé não fez

Luiz Zanin Oricchio

10 de janeiro de 2008 | 15h29

Fábio Negro levanta uma questão interessante. Eu falei de jogos marcantes e ele diz que mesmo uma jogada pode ficar na memória de quem a viu. O exemplo dele: o gol que Pelé não fez contra o Uruguai em 1970. Fábio, eu mesmo já vi e revi esse lance dezenas de vezes e não sei até agora se o entendi por completo. Acho que nunca vou esquecer quando o vi durante o jogo. No primeiro instante não entendi a jogada, na fração de segundo seguinte compreendi a intenção de Pelé. Nesse intervalo nasce a impressão de beleza, que me acompanha até hoje. O depoimento de alguns jogadores acompanha o pensamento do espectador comum. Gérson e Carlos Alberto Torres contam que também não entenderam o que o “Negão” tinha feito, no primeiro instante. Pensaram que Pelé tinha ficado louco ao deixar passar uma bola que poderia ter disputado com o goleiro.

Para mim, essa jogada é o suprassumo, o ápice da invenção no futebol. Fábio pergunta se alguém escreveu sobre essa jogada. Bem, ninguém menos do que o grande crítico de teatro Décio de Almeida Prado, em seu livro Seres, Coisas, Lugares. Transcrevo:

“…Pelé ia receber um passe lateral em condições excepcionais, livre dos zagueiros, mas com o goleiro uruguaio correndo em sua direção, já a pequena distância, pronto a saltar a seus pés e agarrar a bola assim que ele a parasse. Foi exatamente o que Pelé não fez. Percebendo que ela vinha amortecida, deixou-a passar, apanhando-a cinco ou seis metros adiante, com o goleiro inteiramente fora de ação. Que ele tenha errado a seguir o arremate, também por muito pouco e atrapalhado por um zagueiro que viera cobrir o gol, não interessa tanto. O pasmoso, o que perdurou na memória, foi a solução encontrada para uma situação comuníssima, o cálculo instantâneo que realizou, somando três variáveis – ele, a bola, o goleiro – com a velocidade e a precisão de uma máquina eletrônica. Repetir em seguida a façanha já não é tão difícil.”

E, mais adiante, ainda referindo-se ao drible em cima do pobre Mazurkiewicz: “…Nesses pequenos milagres de lucidez, de coordenação integral entre espírito e corpo, o futebol revela a sua mais alta natureza, também de cosa mentale, como Leonardo da Vinci desejava que fosse a pintura”.

Clique aqui para ver a jogada.

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