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O Gerente de Drummond

Luiz Zanin Oricchio

28 de julho de 2010 | 20h08

Por razões profissionais li O Gerente, conto de Carlos Drummond de Andrade que faz parte do volume Contos de Aprendiz. Sou fissurado (ainda se diz assim?) na poesia de Drummond. É escritor que me acompanha desde a adolescência e comigo seguirá até o fim do caminho. Tenho empatia pelo jeito como escreve. A emoção lá, fervendo, porém dominada por uma contenção, por uma secura que ele mesmo dizia vir de Itabira (“Tantos por cento de ferro nas almas, etc”).

Bom, mas isso se refere à poesia. Gosto muito também do prosador, por exemplo em O Observador no Escritório, mas sei que não está à altura do poeta.

O mesmo pode ser dito a respeito dos contos. No entanto, no entanto…há algo diferente que se desprende desse O Gerente, justo quando estávamos prontos a achá-lo talvez clássico demais, pode ser que machadiano demais, no sentido tardio. E, então, Drummond nos surpreende.

Se vocês não se lembram, é a história do gerente de banco Samuel, que veio de Sergipe, chegou pobre ao Rio, progrediu, tornou-se funcionário exemplar e bem-sucedido. Acontece que uma sina persegue Samuel: ele está presente em várias ocasiões em que mulheres acabam feridas por algum acidente.

A narrativa é póstuma, ficamos sabendo que o pobre Samuel já morreu, de uma prosaica uremia, e deixou um diário lacônico no qual conta algumas de suas poucas aventuras terrestres. E mais não digo. A não ser que o relato boia numa sublime ambiguidade.

É encantador.