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O futuro da literatura

Luiz Zanin Oricchio

17 Fevereiro 2008 | 21h15

A Magazine Littéraire de dezembro promove um debate interessante entre dois escritores – Phillipe Sollers e Richard Millet – em torno do tema: “qual o futuro da literatura?” São escritores de gerações diferentes. Sollers nasceu em 1936; Millet, em 1953. Ambos trabalham na mais do que famosa Gallimard. Editora que lançou um livro-bomba de Millet, que causou choro e ranger de dentes em meio à intelligentsia francesa. Désenchantement de la Littérature (Desencantamento da Literatura) é esse texto abusado, que muitos chamaram de “panfleto”.

Millet recusa a denominação. Diz que escreveu um ensaio, dirigido à inteligência, não ao fígado. Segundo o texto introdutório da Magazine, o livro foi recebido sob uma saraivada de críticas praticamente unânimes, que questionavam inclusive a “maison” Gallimard sobre a oportunidade de publicar uma obra daquelas. “E, no entanto, eu nada mais fiz do que exprimir minhas inquietações em relação à literatura francesa, cujo futuro me parece incerto”, defende-se Millet.

Nossa época, acredita o autor, assiste a um corte profundo entre gerações de escritores. Os mais jovens, ou pelo menos um bom número entre eles, usaria a literatura como instrumento de promoção social. “O livro transformou-se em produto”, espanta-se. Distingue entre o normal desejo de reconhecimento, algo humano e intemporal, e o processo de instrumentalização da arte para transformar rapidamente um anônimo em popstar.

Sollers vai em socorro do colega, mas talvez não da maneira como este esperava. Solidariza-se pela maneira destemperada como o ensaio foi tratado. E filosofa: “As críticas são fruto da indignação, e, como dizia Nietzsche, ninguém mente mais do que um homem indignado.” Concorda que a literatura corre perigo, mas não tira desse fato as mesmas conclusões que Millet.

Millet, em seu texto, responsabiliza alguns preceitos do politicamente correto, entre eles a apologia do democratismo e a suposta “mestiçagem” da sociedade francesa, pelo mau momento da literatura. Diz que pertence a uma geração que aprendeu a pensar com a razão e não com as conveniências dos bons modos. Afirma que não glorifica a democracia, da mesma forma que seu compatriota famoso Tocqueville, que Millet alinha entre os “grandes reacionários, as pessoas mais interessantes para o pensamento”. Diz que não é fato que a sociedade francesa seja “mestiça” ou “multicultural”, como passou a ser de bom tom afirmar. Não doura as palavras: “Não vejo porque seria obrigado a acreditar nessa nova religião da mestiçagem, com essa metáfora racial que me desagrada, não por ela mesma, mas porque se transformou em ideologia!”.

Pode-se dizer que a posição de Millet é elitista. A tal ponto que ele desconfia do futuro da literatura não pela falta de escritores, mas de leitores! E Sollers o tranqüiliza, se é que se pode usar este verbo: “A literatura foi sempre pouco lida, isso não é de hoje”. A mesma coisa para todas as artes. Lembra Cézanne, segundo o qual a arte se destina a um número muito pequeno de pessoas, “uma verdade profunda”, conclui Sollers.

É possível popularizá-la? Sollers acha que o escritor deve tentar atingir um número maior de pessoas, mesmo que seja através dos meios eletrônicos, indo à televisão, concedendo entrevistas, etc. “Pensemos em Voltaire e Diderot: eles não sairiam da TV, caso ela existisse”. Quer dizer, é preciso estar antenado em seu tempo para divulgar idéias e mesmo esta arte restrita, a literatura.

Já Richard Millet não suja as mãos nessa guerra por espaço. O que você faz?, pergunta a Magazine Littéraire. “Eu escrevo (pausa). E isso é tudo.”

(Cultura, 17/2/08)