O Fla-Flu entre o cinema brasileiro e o argentino
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O Fla-Flu entre o cinema brasileiro e o argentino

Luiz Zanin Oricchio

12 de abril de 2010 | 13h38

olhos

O Segredo dos Seus Olhos, argentino ganhador do Oscar de filme estrangeiro, tem se comportado como um pequeno fenômeno no circuito comercial brasileiro. Turbinado pelo prêmio, incrementou um boca a boca já favorável e teve até agora quase 200 mil espectadores, cifra considerada alta para produções alternativas. Além do mais, tem provocado estragos narcísicos pela comparação com o cinema brasileiro, que nunca faturou uma estatueta da Academia de Hollywood – esse selo máximo da qualidade cinematográfica no imaginário mundial.

O sucesso de O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, reavivou a antiga tese de que o cinema nacional seria incapaz de dialogar com o público. Razões não faltariam. Desde a ideia conservadora de que os filmes brasileiros se preocupam em excesso com temas sociais e por isso não seriam chamativos para o público, até motivos de ordem cinematográfica.

Assim, os diretores brasileiros sentiriam atração irresistível de abordar temas pesados como favela, sertão, miséria e violência urbana, e o público, que hoje paga até R$ 20 por um ingresso, não estaria a fim de rever, na tela, problemas que o atormentam na vida real. Faz sentido.

Temática. O argumento esbarra no fato de que filmes com essa temática, como Carandiru (4,6 milhões), Cidade de Deus (3,3 milhões) e Tropa de Elite (2,4 milhões), estão entre os mais vistos dos últimos anos. Isso não quer dizer que apenas filmes desse tipo façam sucesso. Uma comédia como Se Eu Fosse Você 2 fez 6 milhões de espectadores, e a saga da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, contada em 2 Filhos de Francisco, levou 5,3 milhões de espectadores às salas.

O segundo argumento é da ordem de linguagem cinematográfica. Faz alguns anos, o ensaísta Jean-Claude Bernardet escreveu um provocativo artigo na Revista de Cinema (n.º 34, fevereiro de 2003), intitulado Os Argentinos Dão Um Banho nos Brasileiros. No texto, dizia que a lavada devia-se à forma de narração. A dos brasileiros lhe parecia atravancada, preciosista, a ponto de falar em “parnasianismo cinematográfico”. Esse mal atingiria até mesmo filmes bem cotados pela crítica como Abril Despedaçado, Uma Vida em Segredo e Através da Janela (do qual o próprio Jean-Claude é roteirista).

Já os argentinos lhe pareciam mais fluidos, leves, alusivos e sugestivos, dispensando pesadas análises e reiterações. Citava como exemplos Nove Rainhas, Esperando o Messias e O Filho da Noiva, este de Campanella.

Essa ideia parece fértil. O cinema que pretende ostentar seu lado artístico corre o risco de se tornar empetecado. Além disso, muitos dos nossos filmes se perdem pelo excesso de explicações narrativas, quer dizer, pelo uso pobre dos recursos da alusão, e pela falta de confiança na capacidade de compreensão do público. Nas palavras de Bernardet, até para descer de um elevador ou tomar uma média com pão e manteiga é preciso evocar mil motivações psicológicas.

Mito. O argumento vale, mas também deve ser matizado. Primeiro, emite um julgamento sobre a totalidade do cinema argentino quando o que vemos no Brasil é uma seleta da produção vizinha. Criou-se a ideia, talvez o mito, de que a produção argentina é toda excelente. Mas o que chega até aqui do cinema dos hermanos é uma pequena parcela do que lançam por ano. Tomando a parte pelo todo, ficamos com a impressão de que lá só fazem filmes como os de Pablo Trapero, Lucrécia Martel ou do próprio Campanella. Segundo, muitos filmes brasileiros praticam esse despojamento narrativo de que sente falta Bernardet, como Cão sem Dono e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, para citar só dois.

Mitologias à parte, há muito de verdade no conjunto de elogios que recebe O Segredo dos Seus Olhos. É, de fato, um bom filme médio, nada intelectual, que se sustenta em narração límpida e sem empecilhos. O elenco (Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella) é forte e homogêneo. Fala de um crime sexual e de bela história de amor em flash-back, mas também evoca o ambiente opressivo da ditadura militar e seus crimes. Faz, em contraluz, reflexão interessante sobre a punição dos desmandos da repressão e a necessidade de que esses episódios sejam passados a limpo, coisa que a direita brasileira não admite sequer discutir. A relação dos argentinos com a História (e, portanto, com a memória) parece às vezes mais consistente que a dos brasileiros.

Esse tipo de filme médio, bom e fácil de ver, bem construído e de conteúdo sólido pode ser, de fato, inspirador para um cinema como o brasileiro, que tem vivido entre sucessos episódicos e fracassos retumbantes. Desde que não seja seguido como fórmula rígida e modelo único.

(Caderno 2/Domingo, 11/4/10)

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