O fim de Chantal Akerman
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O fim de Chantal Akerman

Luiz Zanin Oricchio

06 Outubro 2015 | 14h48

A cineasta Chantal Akerman, no Festival de Veneza

A cineasta Chantal Akerman, no Festival de Veneza

Jornais franceses noticiam a morte da diretora belga Chantal Akerman, aos 65 anos. Teria sido suicídio.

Chantal era um nome de destaque no cinema autoral contemporâneo. Da sua obra, vi alguns filmes que de fato causam impressão pela solidez e ar alusivo. Sua câmera austera, de longos planos silenciosos, às vezes estáticos, buscando a repetição como forma de maior compreensão, compõe um estilo único. Mas talvez influenciado pelo Nouveau Roman e sua narrativa em dissolução.

Vi em Veneza dois deles. La Captive, talvez sua obra-prima, adaptação de La Prisonnière, um dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust.

Também em Veneza passou La Folie Almayer, adaptado de Joseph Conrad. Passa-se no Sudeste asiático e expressa a estranheza do homem ocidental diante de um Outro, oriental, que se parece com ele, mas se distancia por uma diferença radical. Este, aliás, é um tema preferido de Akerman, ou um dos seus temas, o da incomunicação entre pessoas e, pior, entre culturas.

Em DVD, que eu saiba, saiu aqui outra de suas obras marcantes (pela Lume), Jeanne Dielman, sobre uma mulher viúva, mãe de família e dona de casa, que se prostitui no próprio lar. Akerman segue o cotidiano da personagem de maneira ritual, escrupulosa, quase distanciada. Mesmo assim no filme nos comove de maneira marcante.

Recentemente, Chantal apresentou no Festival de Locarno, na Suíça, aquele que viria a ser seu último filme – No Home Movie, sobre sua própria mãe, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz e que falecera em 2014.

Dois diretores brasileiros,  Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira, fizeram um documentário sobre a diretora chamado Chantal Akerman de Cá. Trata-se de uma longa entrevista, feita em inglês e que contém algumas revelações interessantes. Por exemplo, a confiança depositada na intuição por uma cineasta que se supõe tão intelectualizada e racional.

Com a morte de Chantal, o mundo da, digamos, vanguarda cinematográfica, de Jonas Mekas a Claire Denis, está de luto. E todos aqueles que apreciam um cinema autoral, de estilo próprio, fora do mainstream industrial, também. O norte-americano Gus Van Sant (de Drugstore Cowboy e Elefante, entre outros) disse que Chantal era, ao lado do húngaro Bela Tárr, sua maior influência.

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