O Filho do Outro
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Filho do Outro

Luiz Zanin Oricchio

06 de janeiro de 2013 | 11h02

 

O Filho do Outro, de Lorraine Levy, trata de maneira esperta a questão árabe-israelense. Evitando perder-se em abstrações ou generalizações, toma como ponto de partida um caso particular, a troca de dois bebês numa maternidade. Confusão terrível, até certo ponto justificável, pois o hospital se encontrava sob bombardeio quando as mães deram à luz. No caos estabelecido durante o ataque aéreo, perdeu-se o controle e o pior acontece. Uma das crianças é judia, a outra palestina, e cada qual vai parar com a família da outra.

A descoberta da troca acontece anos depois, quando um dos filhos, Joseph, já jovem, faz exames para o serviço militar em Israel. O grupo sanguíneo a que pertence não é compatível com o dos pais, o que leva à suspeita de troca. O outro filho, Yacine, estuda medicina em Paris e veio visitar a família, na Cisjordânia.

Com essa história, um tanto astuciosa e propensa ao folhetinesco, Lorraine examina questões muito complexas como a identidade e a rivalidade que divide a região. Evita, quanto pode, o didatismo talvez implícito numa situação tão pouco usual, e que parece feita a propósito para a defesa de tese humanistas, do tipo “somos todos irmãos”, ou “a guerra é absurda entre quaisquer povos, ainda mais entre aqueles de raízes comuns”. Resvala, às vezes, nesse vício do cinema de bons propósitos que é o mecanicismo. Mas, por sorte, tem outros recursos para extrair emoção e verdade das situações construídas.

O filme tem também um sutil toque feminino, ao mostrar que, na estranha situação criada para as duas famílias, são as mulheres as que primeiro se entendem. Através do quê? Do afeto, ponte que usam para atravessar o mar de preconceitos. Antes de serem uma judia e outra palestina, são mães. Em seguida, são os jovens os que mais rapidamente se adaptam, ainda mais quando conseguem usar um pouco de humor para aliviar a tensão, o constrangimento e a dor. Só no fim os homens adultos, depois de boas demonstrações de intolerância mútua, serão capazes de lidar com a armadilha irônica que a vida lhes plantou.

O Filho do Outro tem méritos cinematográficos. Bem filmado, trabalha com uma fotografia discreta e pouco óbvia. O ponto alto, no entanto, é o elenco, com destaque, de longe, para Emmanuelle Devos (Reis e Rainha), que empresta credibilidade ao papel de uma das mães envolvidas no imbróglio. Aliás, se ela é o ponto alto, deve-se dizer que o restante do elenco é bastante homogêneo e não destoa.

O problema de Lorraine é querer resolver com muita facilidade uma questão cheia de arestas e contradições. A política é banida das preocupações da história, toda ela voltada para os aspectos humanos do affair. E, apesar de inspirada no pensamento de um escritor complexo como Amos Oz (citado várias vezes no filme), O Filho do Outro, muito bonito, deixa um arrière-goût um tanto decepcionante. Torcemos para que as coisas sejam como ele mostra, mas não ficamos muito convencidos disso, apesar da emoção que a história evoca, aqui e ali. Falta aquele plus, aquela faísca simbólica e metafórica que altera a nossa posição sobre determinada questão. Terminamos de vê-lo mais ou menos da mesma maneira como começamos.