O fetiche Kubrick
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O fetiche Kubrick

Luiz Zanin Oricchio

13 de janeiro de 2014 | 17h58

O cinema convida ao fetiche. Ato do olhar, a posição do espectador há muito foi comparada à do voyeur, aquele que espreita a intimidade alheia através de um artifício, o que vê sem ser visto. Um dos mais célebres filmes de Hitchcock, Janela Indiscreta, celebra exatamente esse ato do olhar, que os psicanalistas chamam de pulsão “escópica”. Kieslowski propôs uma variante desse ato em Não Amarás, com o rapaz que olha sem ser visto a mulher do prédio da frente e não consegue amá-la senão nessa condição, digamos, de clandestinidade. É muito belo e também muito triste.

Arte-fetiche, o cinema também atrai o espectador, o fã de carteirinha em especial, pelos bastidores, aquilo que se passa atrás das câmeras e seria, em tese, território vetado ao público. Daí o sucesso do making of, a maneira de construção dos filmes, o conhecimento de tudo o que acontece para que uma obra tenha se tornado naquilo que é. Daí também o fascínio pelos objetos de cena, como se viu na recente exposição de Stanley Kubrick no MIS.

A exposição era parte de toda uma “operação Kubrick” concebida pela Mostra de São Paulo em parceria com o MIS. Quem acompanhou a Mostra sabe que foi uma loucura encontrar ingressos para assistir aos filmes do mestre. 2001 – uma Odisseia No Espaço tinha ares de celebração de uma missa leiga. Havia espanto no público pela atualidade de um filme da guerra fria como Doutor Fantástico, com sua mensagem satírica contra todas as guerra. E mesmo o testamento de Kubrick, De Olhos Bem Fechados, adaptado de um romance de Arthur Schnitzler, atraiu plateia enorme.

Além dos filmes e da exposição, houve o lançamento de um livro fundamental, Conversas com Kubrick, do crítico francês Michel Ciment, composto de três entrevistas e uma série de ensaios esmiuçando a obra do norte-americano. É um livro fundamental. Ciment esteve em São Paulo e deu palestra sobre o diretor.

Dessa operação em três atos – filmes, livro, exposição – ficou claro o fascínio exercido por Kubrick sobre os cinéfilos. Fascinação que se estende aos objetos de cena expostos no MIS e arrastaram tanta gente disposta a enfrentar horas de fila para ver os óculos da ninfeta de Lolita, ou o vestidinho das gêmeas de O Iluminado.

Claro que o cinema de maneira geral tem esse atrativo, mas Kubrick ostenta um algo a mais. Há qualquer coisa de esotérico em sua obra, ou, pelo menos, alguns cinéfilos entendem dessa forma. Na própria Mostra passou um documentário que tentava decodificar uma infinidade de mensagens cifradas que teriam sido colocadas pelo cineasta em O Iluminado, o clássico do terror baseado em livro de Stephen King. Claro que existe um pouco de delírio em tudo isso. Afinal, até erros de continuidade de Kubrick podem ser interpretados como mensagens que o diretor endereça aos eleitos capazes de decodificá-las.

Há um motivo para isso. Em primeiro lugar, o perfeccionismo de Kubrick, capaz de repetir uma cena dezenas de vezes até que ficasse como queria. Capaz de levar produtores à loucura, estourar prazos de produção e criar dificuldades intransponíveis em busca de resultados incomparáveis em termos de linguagem cinematográfica. Como um homem tão detalhista deixaria passar um erro tosco, não fosse para fazer dele pista para alguma verdade oculta?

Depois, delírios à parte, o próprio Kubrick buscava uma certa metafísica cinematográfica, algo que ia além dos meros acontecimentos da tela. Como não lembrar, por exemplo, da estranha sequência final de 2001, com sua especulação sobre o espaço-tempo na vida do personagem e no próprio destino da humanidade? São imagens até hoje discutidas, exatamente porque não possuem sentido unívoco, que se esgotaria no filme. Seus significados, e, em especial, suas perguntas, vão além dele, e dizem respeito a essa dimensão pouco palpável pelo realismo, que é o sentido da existência humana. Estamos menos na ordem da física que da metafísica.

Quando assistimos a algumas obras de Kubrick, ou lemos sobre elas, temos a experiência direta de que dizem mais do expressam em sua aparência. Fazem-nos imergir, como espectadores, nas grandes questões humanas (O que somos, de onde viemos, para onde vamos?), como em 2001; no mistério do desejo humano como em De Olhos Bem Fechados; no próprio fetiche inconfessável, como em Lolita.

Sua maneira de responder, sem concluir, mas aprofundando a cada vez o mistério, faz de Kubrick um cineasta da especulação filosófica pura. Essa aura impregna seus filmes, suas memórias, seus objetos de cena. Deles, emana uma estranha e persistente magia. Que nos atrai sem cessar.

 

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