O Festival de Curtas e a Carta ao Magrão
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O Festival de Curtas e a Carta ao Magrão

Luiz Zanin Oricchio

27 de agosto de 2021 | 11h27

A superposição de eventos deixa a gente louca. Nem tive tempo para acompanhar o Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo, pois estava imerso no Festival de Gramado. Com o fim deste, pude ver alguns curtas. A programação e os filmes podem ser vistos pelo site https://2021.kinoforum.org/

O festival está em sua 32ª edição e é famoso pela curadoria rigorosa. É um evento cinematográfico de alta qualidade e este ano traz 202 curtas-metragens, em diversas mostras. 

Dito isso, registro que assisti, emocionado, a Carta ao Magrão, de Pedro Asbeg. Narrado em primeira pessoa, o cineasta conta a entrevista que fez com Sócrates em 2010, um ano antes da morte do jogador. E relata a ele no que o Brasil se transformou nesses últimos dez anos. Primeira mulher eleita presidente, golpe de 2016, Temer, prisão de Lula, eleição do indizível. 

O filme é uma homenagem a um dos nossos grandes jogadores, artista da bola e ser humano politizado, consciente, culto e engajado – qualidades absolutamente raras num meio profissional dominado pela alienação e, agora, pela teologia da prosperidade. Deu muita saudade do Magrão. 

Outro filme interessante é Marranos do Sertão, de Felipe Goifman e Sérgio Bloch. Conta uma história incrível, a dos judeus que imigraram para o Brasil e foram morar no interior de Pernambuco. Para evitar perseguições, converteram-se ao cristianismo. Gerações depois, seus descendentes voltam ao judaísmo, mas à maneira sincrética brasileira. 

Entre as coisas engraçadas (e talvez verdadeiras) está o “kipá de couro”. Segundo um deles, aquele tradicional chapéu do vaqueiro nordestino seria, em sua origem, um kipá disfarçado, com as tirinhas de couro pendentes evocando as trancinhas dos judeus ortodoxos. Como diriam os meus antepassados, “Si non è vero è ben trovato”.

5 Fitas, de Heraldo de Deus e Vilma Carla Martins é a história de dois garotinhos irmãos que se perdem nas ruas de Salvador no dia do Senhor do Bonfim. Numa narrativa simples, humana, sem nada de ingênua, faz um retrato amoroso da capital baiana e de seus habitantes. A mágica Salvador, cantada por Jorge Amado. 

Com toques de realismo fantástico e sofisticação de filmagem, Menarca, de Lilah Halla, mostra o cotidiano de uma vila de pescadores numa localidade infestada de piranhas. A menarca (primeira menstruação) é um retrato simbólico da ameaça sexual a duas adolescentes. Muito criativo.  

Enfim, são apenas exemplos de filmes, entre tantos possíveis oferecidos por este festival. Aproveite os dias que restam e dê um passeio pelo mundo. Sem sair de casa e de graça.