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O fator humano

Luiz Zanin Oricchio

28 Fevereiro 2007 | 13h50

Gostei muito da coluna do Armando Nogueira, no Lance!, dedicada ao Renato Gaúcho. Em nome dos não boleiros, contextualizo. Os boleiros me perdoem a redundância. Domingo, no Maracanã, disputava-se a semi-final do primeiro turno do Campeonato Carioca (espertos, eles fazem dois campeonatos em um, mas esta é outra história). Empate entre Vasco e Flamengo no tempo regulamentar, as equipes vão disputar quem passa para as finais nos pênaltis. Renato Gaúcho, técnico do Vasco, senta-se no banco e não acompanha as cobranças. Enfia a cabeça entre as mãos e assim permanece. Muita gente viu no ato uma falha de comando (tinha de estar junto dos jogadores), uma fraqueza, uma anomalia, em suma.

Armando Nogueira, não. Detectou ali o ser humano, complexo, num momento seu, de recolhimento e solidão. Quando a crônica esportiva tende a ser técnica, falando de esquemas táticos e da numerologia (3-5-2, 4-4-2 e outros bichos) associada ao esporte, Armando devolve ao futebol aquela que é sua dimensão maior, e faz dele o preferido entre todos, o fator humano. No que nada mais faz senão prestar homenagem ao mestre de todos nós, Nelson Rodrigues, que via um jogo com olhos de dramaturgo e portanto via melhor do que os outros.

Sim, o Vasco foi derrotado nos pênaltis. Depois de tudo acabado, Renato disse que “disputa por pênalti é loteria”. Há quem pense assim, há quem diga que esse duelo entre dois jogadores é questão de treinamento, técnica, equilíbrio emocional. Fico mais com a segunda alternativa, mas isto aqui não importa. Importa é o que pensa o Renato. Se pênalti é loteria, como acredita, lá estava ele entregue ao destino, ao imponderável, à Providência Divina. Desamparado, em suma. Como uma criança, lembra Armando Nogueira na crônica. Essa aflição diante do destino incontrolável é que lhe dá a dimensão humana.

Eu quase ia dizendo que lhe dá uma dimensão trágica, porque no fundo é disso e não de outra coisa que tratam os gregos em suas peças.