O fascínio de ‘Uma Mulher Fantástica’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O fascínio de ‘Uma Mulher Fantástica’

Filme do chileno Sebastián Lelio põe em cena uma personagem transgênero e aborda a série de preconceitos sociais que se abate sobre ela

Luiz Zanin Oricchio

07 de setembro de 2017 | 10h39

 

Uma Mulher Fantástica, do chileno Sebastián Lelio, causou polêmica quando apresentado no Festival de Berlim, e foi bem recebido, com ressalvas. Algumas críticas, em especial na imprensa francesa, se queixam de certa “vitimização” da personagem trans. Ora, pode-se dizer, existem personagens que são mesmo vítimas preferenciais em nossas sociedades. E, certamente, trans estão entre elas, ao lado de negros e pobres em geral. São personagens incômodos, pelo ponto de vista dominante. Não vejo aí problema em retratá-los sob a ótica do peso da discriminação que sofrem.

Em todo caso, a protagonista jamais se conforma com a posição de vítima e sustenta um comportamento mais para o assertivo, que nega a passividade.

Daniela Vega faz Marina, trans que mantém um caso com um homem mais velho. Mais que um caso, na verdade. Ela diz que são uma “pareja”. Um casal. E por que não? Quando o homem morre de um aneurisma, o mundo desaba sobre Marina. Mesmo porque ela caiu da escada e apresenta ferimentos, o que pode ser interpretado como luta com a vítima. Entra na história a polícia, entra em especial a família do morto, ressentida pela escolha sexual do patriarca.

O  filme passa em revista a série em aparência infindável de preconceitos alimentados pela sociedade e por todos nós, que fazemos parte dessa sociedade em seu conjunto. Marina é retratada de maneira discreta, sóbria e com toda a dignidade.

Do ponto de vista estético, Lelio calibra a obra entre o realismo e certo apelo ao fantástico. Algumas cenas parecem sonhadas ou imaginadas pela personagem. E há um mistério – o que teria ela encontrado no armário da sauna frequentada por seu parceiro? O enigma fez muita gente pensar na famosa caixinha preta levada por um cliente ao bordel em A Bela da Tarde, de Luis Buñuel. Em todo caso, trata-se de um detalhe, um recurso narrativo que, entre outros, faz o filme escapar de um realismo talvez muito estreito para comportar a complexidade do tema.

Dessa forma, Uma Mulher Fantástica desdobra-se em registros fílmicos diversos. É, ao mesmo tempo, drama social, melodrama, thriller, etc. Um filme de autor e um espetáculo que pretende dialogar com o público, embora não tenha ido lá muito bem de bilheteria em seu país de origem.

O próprio filme seria um dispositivo trans, analisa sua montadora, Maria Soledad. Nesse sentido, destoa da filmografia anterior de Lelio, em especial de Gloria, seu grande sucesso, que, este sim, trabalha em registro realista de maneira contínua.

Talvez a chave dessa postura ambivalente seja mesmo a participação da protagonista, que é de fato trans, não é uma atriz profissional, e dá tom ao “dispositivo filme”. Daniela Vega é cantora lírica e põe sua voz no filme. Em especial, se impõe a sua presença, pelo magnetismo, honestidade e dignidade com que interpreta a personagem.

 

Tendências: