O Exercício do Caos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Exercício do Caos

Luiz Zanin Oricchio

08 de novembro de 2013 | 16h21

 

O próprio diretor de Exercício do Caos, Frederico Machado, sabe que fez um filme imperfeito. Falou abertamente sobre isso na primeira apresentação do seu longa de estreia, em Curitiba, no Festival Olhar de Cinema, ao qual estive presente.

Mas suas imperfeições, a meu ver, não lhe roubam o interesse. Pelo contrário, elas advêm, menos de supostas insuficiências do diretor do que de sua disposição ao risco. Quem se arrisca, erra. Quem não se arrisca, além de não petiscar, arrisca-se a fazer uma obra certinha porém burocrática.

Enfim, há desacertos, mas também encanto nessa história um tanto estranha de um pai que mora com suas três filhas no meio do mato. A história é lacunar e lacônica. Há pouco diálogo entre esse pai (Auro Juriciê) e as filhas (Thalyta Souza, Isabela Souza e Tainá Souza). A mãe (Elza Gonçalves) não faz mais parte desse quadro familiar. Reaparece na memória dos personagens e em seus fantasmas – que é o termo psicanalítico correto para fantasias inconscientes.

De toda forma, O Exercício do Caos parece muito mais um discurso articulado pelo inconsciente, com seus absurdos e seu tom noturno, do que por uma consciência solar e racional.

Mesmo porque, sem a figura materna de maneira concreta, a casa é assediada por um não menos misterioso capataz (Di Ramalho), pronto a exercer uma estranha autoridade sobre o pai.

Em certo sentido, O Exercício do Caos tem parentesco com O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro. Com certas diferenças óbvias – Navarro é diretor mais tarimbado (é autor de O Super Outro e de Eu Me Lembro, vencedor do Festival de Brasília) e pode se permitir voos mais ousados, como uma imersão completa no inconsciente e no mundo das crendices populares brasileiras.

Frederico, afinal em seu primeiro longa, se contém um pouco mais. No entanto, não deixa de ser interessante No entanto, não deixa de ser interessante observar como, ele também, a exemplo de Navarro, imerge no imaginário popular, e incorpora à narrativa crenças que impregnam a visão do mundo do homem rural. Especialmente numa situação como esta, um tanto atemporal, em que não se veem os signos da modernidade que hoje se encontram em qualquer canto.

Outra qualidade é a disposição do diretor em extrair ao máximo a potencialidade das imagens, sem se amparar na muleta dos diálogos explicativos, como fazem muitos diretores mais experimentados. Se o cinema é audiovisual, quer dizer, se ampara tanto na linguagem verbal como na das imagens, é nesta última que deve construir a sua especificidade.

Trabalhando na zona cinzenta de fronteira entre o real e o mágico, Machado se instala naquele território do fantástico bem descrito por Todorov em sua obra clássica sobre a literatura fantástica. Essas intrusões do elemento da estranheza alimentam essa obra que, digamos mais uma vez, instigante apesar de imperfeita, só pode despertar o interesse de quem está cansado do marasmo cinematográfico e não se conforma com mais do mesmo.

Além do mais, há quanto tempo você não vê um longa-metragem maranhense?

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: