O estilo e os temas de Manoel de Oliveira *
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O estilo e os temas de Manoel de Oliveira *

Luiz Zanin Oricchio

02 de outubro de 2013 | 10h52

Iniciada com um documentário, Douro, Faina Fluvial (1931), a obra de Manoel de Oliveira se desenvolve como um conjunto de ideias cuja meditação a transforma em um cinema muito particular.

Preocupado com o tema dos amores frustrados filma uma personalíssima versão de Madame Bovary em Vale Abrahão. Baseado em texto de Agustina Bessa-Luís, Oliveira retrata uma Bovary estranha, com um leve defeito no andar que só lhe sublinha o mistério sensual. No papel de Ema, uma de suas atrizes-fetiche, Leonor Silveira.

Oliveira não reflete apenas sobre os aspectos pessoais do relacionamento conjugal. As contradições do colonialismo português também o interessam, como prova um dos seus títulos mais fortes – Non, ou a Vã Glória de Mandar. O narrador da história colonial portuguesa é o militar interpretado por Luis Miguel Cintra, outro dos seus intérpretes favoritos. Nesse filme, de tom expositivo e reflexivo, toda a história de Portugal na verdade é posta em xeque. O título refere-se a uma frase de Vieira (sobre o qual ele fez o maravilhoso Palavra e Utopia, tendo Lima Duarte como o Vieira idoso). Non, o não do português arcaico, é palavra vista como terrível, pois nega nos dois sentidos da leitura, Um palíndromo da negatividade. A reinterpretação da história portuguesa, com a melancolia cética habitual, é um tema recorrente, em filmes como Os Canibais, O Quinto Império e Cristóvão Colombo, o Enigma.

Mas se Manoel vai ao passado, também toma como ponto de apoio o presente para compreender as particularidades da sua cultura. Um dos filmes mais notáveis nessa linha é Viagem ao Princípio do Mundo, que tem Marcello Mastroianni em seu último papel. Pouco depois de terminadas as filmagens, Marcello morreria. Ele faz um ator francês em busca de suas origens portuguesas. Neste filme cheio de mistérios e sutilezas, a mística do interior desvela-se aos poucos aos olhos citadinos.

Na fase mais recente do seu trabalho, Oliveira tem realizado obras de inesperada leveza, como se os anos o deixassem mais jovem e livre da necessidade de tudo dizer. São assim Vou para Casa (2001), Belle Toujours (2006), Singularidades de uma Rapariga Loura (2009) e O Estranho Caso de Angélica (2010), em que flerta com o fantástico.

Dominando uma temática de amplo espectro, Oliveira é dono de estilo caracterizado pela sobriedade. Não faz um movimento de câmera desnecessário, nenhuma firula exibicionista. Se os atores estão no campo, cabe deixar que façam seu trabalho e filmá-los. Esse despojamento é uma assinatura.

* Texto publicado no Caderno 2 sobre a exposição/retrospectiva do Instituto Tomie Ohtake dedicada ao diretor português

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