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O Esquecimento: um outro Peru

Luiz Zanin Oricchio

30 de março de 2009 | 13h57

Como contar a história de uma cidade, ou mesmo de um país? Pelas imagens oficiais ou por meio daqueles que povoam e trazem vivacidade às ruas, com todas as suas contradições? Esta última é a opção de O Esquecimento,de Heddy Honigmann, belo documentário sobre o Peru e sua capital, Lima, em particular. É a Lima vista pelos anônimos, a começar pelo barman de um dos restaurantes mais famosos da capital. Mas também saem bem na fita os pequenos malabaristas dos sinais de trânsito, pessoas que moram na periferia, gente comum que anda pela rua, alfaiates, e migrantes que vieram do interior do país procurar algum refúgio em Lima.

Refúgio de quê? Da guerra entre forças do governo e a guerrilha do Sendero Luminoso. Em geral, essas pessoas ficavam espremidas entre as duas forças em combate e sofriam todas as consequências da insanidade. Um deles diz que perdeu uma irmã num desses conflitos e, até hoje, não sabe se quem a matou foram soldados do Exército ou guerrilheiros do Sendero.
O tom, no entanto, não é de desespero. Pelo contrário. Em meio ao sofrimento e mesmo ao patético, veem-se pontos de luz. As pequenas malabaristas de semáforo desejam se tornar ginastas olímpicas. O barman, que leva a diretora à sua casa, apresenta sua mulher que nunca pôde sentar-se numa das mesas do restaurante de luxo onde ele trabalha. Não tem importância, ele diz. Cozinha para ela as mesmas comidas sofisticadas que se servem no restaurante. Exímio preparador do pisco sour (o aperitivo oficial do Peru), ele conta que certa vez serviu um suco com vodca a um presidente abstêmio. “Ele tropeçou na cerimônia oficial, e essa foi minha pequena vingança pessoal”, diz, rindo.

É dessa maneira que aparece a história oficial do país, com suas personagens conhecidas, Belaúnde Terry, Alan García, Fujimori filtrados pela ironia popular. Esse é o riso salutar que permite aos fracos a sua sobrevivência mental. O filme, singelo e encantador, é sobre um país culturalmente muito rico. E, claro, essa riqueza vem mesmo é das pessoas em aparência mais simples.

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