O espetáculo mais triste da Terra
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O espetáculo mais triste da Terra

Luiz Zanin Oricchio

08 Janeiro 2012 | 21h54

 

A vida é assim. Segue seu ritmo cadenciado, monótono até, na sucessão previsível dos dias. Até que alguma coisa excepcional acontece e tudo então parece carregado de sentido, para o bem e para o mal. Foi o que sucedeu naquele 17 de dezembro de 1961, quando uma prosaica matinê circense se transformou na maior tragédia de Niterói. O Gran Circo Norte-americano, com seu nome pomposo e tudo, pegou fogo num incêndio que ceifou a vida de centenas de pessoas, a maior parte delas crianças. É o tema do livro O Espetáculo mais Triste da Terra, do jornalista Mauro Ventura, que reconstitui a tragédia em seus vários aspectos.

Não à-toa, lá pelo fim do livro, Mauro Ventura, que é repórter de O Globo e filho do jornalista Zuenir Ventura, constata que uma experiência desse gênero desperta o que há de pior – e também o que existe de melhor – nas pessoas. Sim porque logo que começou a correr por toda Niterói a notícia de que havia centenas de pessoas queimadas e feridas em função do incêndio, montou-se, de forma espontânea, uma formidável rede de solidariedade para dar assistência aos feridos. Enquanto a caridade agia à luz do dia, à noite se movimentavam os que saqueavam cadáveres ou procuravam de alguma forma tirar partido, inclusive político, da tragédia.

O livro ilumina esses desvãos e dá devido valor aos atos de abnegação. Mas vai muito além disso. É um trabalho valioso de pesquisa, aliado à boa disposição de repórter que, como se sabe, não pode ter dó de sola de sapato e precisa manter o interesse em ouvir o próximo. Mauro entrevistou 150 pessoas, de médicos a sobreviventes do incêndio, passando por artistas do circo que estavam em cena na função daquela tarde de calor excessivo no verão de Niterói.

Não foi fácil levantar a memória daqueles dias, conta o autor. Apesar de todo o tempo transcorrido, o tema ainda é tabu. Muita gente se esquivava ou perguntava ao repórter por que queria revolver aquela história triste, acontecida havia tanto tempo. O próprio Mauro nem era nascido na época. Veio ao mundo apenas um ano e dez meses depois dos fatos que pesquisou. Só ouviria falar do assunto trinta anos depois, ao ver nas pilastras do Caju, zona portuária do Rio de Janeiro, a inscrição “Gentileza gera Gentileza”. Eram escritas pelo Profeta Gentileza, um tipo popular carioca que, dizia-se, havia enlouquecido quando perdeu toda a família no incêndio do circo, uma versão falsa. José Daltrino era um pequeno empresário de cargas. Diz-se que quando soube do incêndio, saiu ao quintal da casa e cobriu-se de lama. Abandonou tudo, empresa e família, para, em sua versão, atender a uma voz que o mandava consolar as vítimas do incêndio e pregar a palavra de fraternidade entre os homens.

Daltrino não foi o único tocado pelo incêndio do circo. Sem ouvir vozes místicas, mas fiel ao seu juramento de médico, um cirurgião, destinado à fama e ao jetset, empenhou-se a fundo no tratamento dos queimados. Mauro Ventura leu na autobiografia de Ivo Pitanguy que o atendimento aos queimados de Niterói fora “a experiência que marcara mais fortemente a minha vida”. Até então, a cirurgia plástica era considerada o ramo fútil da medicina. No tratamento dos queimados, ganhou respeito da opinião pública e credibilidade na classe médica.

Por fim, Ventura ouviu de uma tia, na época moradora de Nova Friburgo, que pretendera levar as duas filhas, então crianças, ao espetáculo, mas desistira na última hora. Talvez tenha sido uma intuição. Talvez. De qualquer forma, a tragédia do circo despertara a curiosidade do repórter que agora pressentia, apesar dos anos decorridos, o cheiro de “uma boa história”, isca que costuma fisgar jornalistas de fato vocacionados para a profissão.

E essa história começa pelo fato de que o Gran Circo Norte-americano nada tinha de norte-americano. Pertencia a Danilo Stevanovich, cuja família, até hoje, e apesar do sinistro de Niterói, continua no ramo circense. Batizou seu estabelecimento de “norte-americano” porque essa origem seria sinônimo de qualidade, competência, eficácia, espetáculo, valores positivos associados aos Estados Unidos desde o fim da 2ª Guerra Mundial.

Não que os próprios americanos não tivessem problemas. Afinal, 1961 não era um bom ano para eles. O astronauta soviético Yuri Gagarin tornara-se o primeiro homem a orbitar o planeta no interior de um artefato da indústria aeroespacial inimiga. Gagarin sustentava que, vista de fora, a Terra parecia azul, mas a cor que tirava o sono dos americanos era a vermelha, da ameaça comunista.  Paranoia à parte, aos olhos dos brasileiros a simples menção de que algo era americano trazia à mente qualidades superlativas, da música pop ao cinema, passando pelo circo.

No entanto, tal selo de qualidade importado não se aplicava a alguns quesitos básicos do circo de Stevanovich, a começar pela lona, fabricada de material facilmente inflamável, ao contrário do que proclamava a propaganda do proprietário.

Foi pela lona que tudo começou. Quem deu o aviso foi a trapezista Nena, irmã do dono do circo, que fazia seu número com dois colegas. Um deles, Grotto, viu uma luz suspeita na parte de baixo da lona. Desceu, tomou Nena pelo braço e esperaram que o terceiro artista, Sanchez, também pulasse para lugar seguro. Só então ela deu o clássico grito de “Fogo!”, senha para a debandada geral. As chamas subiram com velocidade e fúria incríveis e, como não havia saída de emergência, transformaram o circo em armadilha infernal para os cerca de 3 mil espectadores da matinê. Muitos foram salvos pelo pânico da elefanta Semba que, em sua fuga, abriu enorme buraco na lona por onde muita gente passou. Claro que, em sua trajetória desesperada, Semba também pisoteou outros tantos.

O livro avança do sinistro, como dizem os agentes de seguro, para os seus desdobramentos. As cenas em hospital, por exemplo, as histórias da gente simples, relembradas muitos anos depois. Como a de Lenir, que fez questão de levar toda a família ao espetáculo depois de saber que a girafa era “xará” de sua filha, Regina. Naquela tarde, Lenir perdeu o marido e as duas filhas. Escapou viva, com muitas sequelas, depois de enfrentar nove meses de hospital.

Há também registro da reação de gente importante, como o então presidente João Goulart, que visitou pacientes, impressionou-se com a extensão dos ferimentos de muitos deles e, depois, sentou-se numa sala vazia, colocou a mão no rosto e chorou. Quem conta é um médico, testemunha do desalento sincero de Jango diante de tanta miséria humana.

Há também a crônica policial. Qual seria a causa do incêndio? Acidente, provocado por negligência com itens de segurança? Incêndio criminoso? A versão oficial ficou com a última alternativa com a prisão de um certo Dequinha, de 22 anos, que fora empregado do circo e, despedido, jurara vingança. Ele e dois cúmplices foram presos, mas nem as vítimas acreditavam na culpa de Dequinha (apelido de Adilson Marcelino Alves), um doente mental que gostava de confessar crimes imaginários. Um juiz chegou a sugerir para ele a mesma pena de Eichmann, o carrasco nazista enforcado em Jerusalém em 1962. Em 1973, Dequinha fugiu da cadeia e apareceu morto, com vários tiros no corpo. Até o número de disparos é controverso. Alguns jornais falam em três, outros em treze. Nunca se descobriu quem puxou o gatilho.

De real, sobre o incêndio, sabe-se que a lona era de material inadequado, que não havia saídas de emergência como manda a lei, que as instalações elétricas eram precárias e que o principal hospital de Niterói, o Antonio Pedro, estava em greve naquele domingo. Sabe-se também que morreram, segundo dados oficiais, 503 pessoas, na hora do incêndio ou depois, de sequelas. Há quem ache o número conservador e fale em até mil vítimas no Gran Circo Norte-americano.

Não há certezas e nem como pesquisar esses dados. Em O Espetáculo mais Triste da Terra, Mauro Ventura confronta versões e faz arqueologia. Uma arqueologia das cinzas, literalmente.

 

Trecho:

“O fogo teve início a cerca de vinte metros da entrada, do lado esquerdo. Veio de baixo, a menos de três metros do chão, mas lambeu a lona com tamanha rapidez que, ao ser visto, não pôde mais ser contido. As labaredas avançaram com uma fúria inconcebível num espaço que até pouco antes era dominado pela alegria das crianças. A madeira das arquibancadas e a serragem no piso ajudaram a propagar o incêndio e a encher de fumaça o ambiente. Muitos espectadores estranharam o aumento súbito da temperatura, mas atribuíram o desconforto ao calor excessivo do dia…O incêndio democratizou as mortes. Suas vítimas foram principalmente os que estavam nos camarotes e cadeiras numeradas, mais caros, mais próximos do picadeiro, mais distantes da saída principal e separados das arquibancadas por uma cerca de madeira. Crianças, adultos e velhos foram atropelados e pisoteados quando tentavam escapar. O perigo também vinha do alto. À medida que as chamas avançavam pela cobertura, davam o origem a uma chuva de gotas incandescentes, que atingiam corpos e cabeças.” (pág. 17)

Serviço: O Espetáculo mais Triste da Terra – o Incêndio do Gran Circo Norte-americano, de Mauro Ventura. 320 págs + 32 pag, do caderno de fotos. Editora Cia das Letras, R$ 46.