O Escritor Fantasma, de Polanski
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O Escritor Fantasma, de Polanski

Luiz Zanin Oricchio

28 de maio de 2010 | 14h40

Kim Catrall e Ewan McGregor em O Escritor Fantasma

Kim Catrall e Ewan McGregor em O Escritor Fantasma

Ghost writers são seres anônimos que escrevem para a glória alheia. Essa curiosa (e às vezes trágica) situação foi tema de Chico Buarque em Budapeste, romance filmado por Walter Carvalho. Roman Polanski aborda o mesmo tipo de personagem em O Escritor Fantasma, belo thriller político que chega nesta sexta. 28, aos cinemas.

Ewan McGregor interpreta esse personagem, sem assinatura, que assume uma tarefa interrompida por seu antecessor: escrever as memórias de um poderoso político britânico, agora em retiro em uma ilha na costa norte-americana. Sem emprego, o escritor aceita a oferta, bastante tentadora do ponto de vista financeiro. E viaja aos Estados Unidos para conhecer o manuscrito inacabado e entrevistar o ex-primeiro-ministro.

O filme se cola a algumas referências bem reais – Adam Lang (vivido pelo ex-007 Pierce Brosnan) é clara alusão a Tony Blair, o primeiro-ministro que envolveu seu país na invasão do Iraque. A sombra de uma guerra causada por interesses econômicos inconfessáveis, insinuações de corrupção entre homens poderosos e todo um maquinismo político que se vale e aniquila pessoas comuns são vistos na contraluz desse filme poderoso.

Há nele a presença do escritor fantasma como avatar do investigador – aquele tipo que tem uma tarefa a realizar (no seu caso, escrever um simples livro autoindulgente), mas a extrapola. Acaba descobrindo o que não deve e por isso paga seu preço. No fundo, descobre o que deve, que a realidade não é tão benigna como parece, que supostos heróis podem ser vilões e vice-versa. Tudo se embaralha, num mundo de sombras em que fica difícil, senão impossível distinguir os bons dos maus. Inútil dizer que essa maneira complexa de enxergar a vida afasta o cinema de Polanski dessa vocação apaziguadora do cinema comercial. Polanski, que sabe também trabalhar o filme de gênero como poucos, produz inquietações. Suscita mais perguntas do que respostas. E, desta vez, desce não apenas aos porões sombrios das almas individuais, mas vasculha os interesses políticos e corporativos, essa caixa-preta da nossa história contemporânea.

Como nos melhores filmes de Polanski (como Faca n’Água, Repulsa ao Sexo, Chinatown, O Bebê de Rosemay e O Inquilino), o domínio do clima e da tensão é total. McGregor mergulha no ambiente isolado onde fica o escritório e bunker de Lang, uma espécie de microcosmo depurado que, aos poucos, vai assumindo uma condição onírica. Ou melhor: de um pesadelo do qual ele não consegue acordar. Lembra um pouco a situação de Mia Farrow em Bebê de Rosemary, quando ela começa a perceber, em parte, as ameaças que a cercam, dos vizinhos ao ginecologista, incluindo o próprio marido (John Cassavetes). Também para McGregor, cada passo no sentido de esclarecer o mistério só parece aprofundá-lo.

Para comparar com uma obra contemporânea, o clima de paranoia conseguido por Polanski em O Escritor Fantasma lembra muito o de Scorsese em seu A Ilha do Medo. Dois filmes brilhantes, cada qual em seu estilo, sobre a opacidade do mundo.

O Escritor Fantasma – Direção: Roman Polanski. Gênero: Drama (128 minutos). Censura: 12 anos. Cotação: ótimo

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