As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O enigma do filme popular

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2006 | 21h54

Fui agora ao Cine Yara, o mais popular de Havana, assistir a um filme que até hoje estava em segundo lugar para o voto do público – Las Manos, do argentino Alejandro Dória. Dramalhão que parece ter sido feito nos anos 40, conta a história do padre Mario Pantaléo (Jorge Marrale), milagreiro que teve de enfrentar a hierarquia da Igreja para atender aos doentes e necessitados. Ele é ajudado por uma ricaça devota, Perla, vivida por Graziela Borges. A história não é nada: o problema é o tom, melodramático, música excessiva, clichês e obviedades. O tipo de filme que crítico detesta. O público amou. Dá uma sensação estranha ver esse tipo de filme junto a um público emocionado de mais de 2.600 pessoas. Na porta do cinema, havia polícia para dominar os espectadores que não podiam entrar.

Quando a sessão acabou, vi gente chorando ao meu lado. Aplausos de pé. Uma pessoa pegou o microfone e pediu que ninguém saísse pois havia uma surpresa. A “surpresa” logo subiu ao palco: era o ator Jorge Marrale, intérprete do padre Mario, que havia acabado de chegar a Havana e fora ao cinema assistir à projeção. Recebeu uma ovação espetacular e as lágrimas rolaram para valer. Marrale estava realmente emocionado – e quem não estaria sendo aplaudido por uma multidão comovida de quase 3 mil pessoas?

Saímos, eu e mais duas brasileiras, meditando sobre o fenômeno insondável do filme popular. Acabáramos de ver um melodrama que parecia ignorar 60 anos de história e desenvolvimento da linguagem cinematográfica e, mesmo assim (ou talvez por isso mesmo), comovia uma platéia popular. Assim é o cinema. Exigimos que continue a avançar e nos apresentar novidades. Mas parece que, na imaginação popular, existem formas solidificadas, fórmulas que sempre emocionam e vieram para ficar.
Assistir a uma sessão dessas é um convite à humildade do crítico. Continuamos a não gostar desse tipo de filmes, mas devemos enfrentar o mistério do seu permanente poder de encantar o público.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.