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O enigma do Che de Soderbergh

Luiz Zanin Oricchio

21 de setembro de 2009 | 16h59

Tenho observado a má recepção crítica à segunda parte do Che de Steven Soderbergh. Estranho (ma non troppo) porque me pareceu bom filme, nas duas vezes que o vi. Na primeira, assisti às duas partes juntas, o que me parece essencial para formar uma ideia sobre a obra. Depois, revi a segunda parte no Cine Ceará, que consagrou sua programação fora de concurso ao Che Guevara, este ano.

Pois bem. Acho que, não fosse por uma questão comercial, as duas partes deveriam ter sido lançadas juntas. São mais de quatro horas de projeção, o que cria problemas nos horários das sessões, etc. Tudo bem, cinema é indústria e também comércio, etc. Agora, o que diria um escritor (sério, quero dizer) se um editor lhe dissesse que um livro de mais de 300 páginas não pode ser publicado? É isso. O projeto de Soderbergh, com consultoria de Jon Lee Anderson, biógrafo de Guevara, não poderia ser resumido nas tradicionais hora e meia ou duas horas do cinema comercial. Então foi dividido em duas partes. E estas lançadas com considerável intervalo entre si. Quando se vê a segunda parte, a memória da primeira já se apagou. Ou ficou difusa. Perde-se um pouco a relação entre elas. E, na relação, talvez esteja a chave da interpretação do Che de Soderbergh.

Mas o fato é que a primeira parte é mesmo mais fácil de ser digerida, pois representa a fase “eufórica”, a vitória da revolução, a proposta do “homem novo”, a aventura no Granma, na Sierra Maestra, a entrada triunfal em Havana, etc. É o filme da juventude, com seus encantos.

O segundo seria o filme da maturidade. Da derrota. Do “realismo”, no mau sentido do termo, pois significaria a constatação de que a aventura cubana era, no limite, irrepetível, o que desmente a tese central do Che de que a revolução poderia se espalhar, formigar aqui e ali como cogumelos em pau úmido. Essa parada foi perdida mesmo. Mas, e aqui me pergunto: o Che da segunda fase não seria uma consequência lógica do Che da primeira, como se nela estivesse contido? O cavaleiro andante sacrificial da Bolívia já não estaria prefigurado no guerrilheiro vitorioso de Cuba?

Daí o tom às vezes para baixo, detalhista e até arrastado desta segunda parte. Que, a meu ver, para ser entendida, tem de refletir a luz lançada pela primeira. No aspecto mais evidente da coisa, dos “fatos”, a extinção física do guerrilheiro na Bolívia representa a sua derrota final. Já na configuração do mito, é apenas o acabamento perfeito de uma aura a ser construída, e usada a cada vez que se falar doravante de revolta, insurreição e mesmo revolução.

A vida do Che não foi um fracasso. Ou uma moeda de dupla face, marcada primeiro pela vitória e, em seguida, pela derrota. Uma espelha a outra e, na dimensão histórica, se complementam. Soderbergh deve ter intuído tudo isso, e construiu seu filme (seu filme único e não uma obra constituída de duas partes) em consequência dessa “compreensão” talvez pouco consciente.

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