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O Engenho de Zé Lins

Luiz Zanin Oricchio

25 Novembro 2006 | 11h00

É esse o título do novo documentário de Vladimir Carvalho, dedicado, evidentemente, ao seu conterrâneo José Lins do Rego. De um paraibano para outro, Vladimir faz um filme emocionado, que refaz a trajetória do escritor desde a infância, como menino de engenho, até a morte no Rio, prematura, de cirrose hepática, aos 56 anos. Grande escritor, Zé Lins, autor de obras fundamentais como Menino de Engenho (filmado por Walter Lima Jr.), Fogo Morto, Pedra Bonita e Cangaceiros. Grande figura humana, também. Flamenguista fanático, foi dirigente esportivo e protagonista de histórias engraçadíssimas, relembradas no filme. Numa delas, desce ao vestiário do Maracanã para emprestar solidariedade ao time do Flamengo, que havia perdido um jogo. Abraça o craque Jair Rosa Pinto mas, em seguida, recua horrorizado. O jogador está seco, enxuto, composto, como se tivesse participado de uma partida de bridge. Revoltado, Zé Lins exige a camisa de Jair, sai com ela na mão, promove um comício contra jogadores mercenários e a queima em público. Quem conta a história é Carlos Heitor Cony, que comete o desatino de dizer que a Semana de Arte Moderna de São Paulo não teve a menor importância e que o modernismo começou mesmo com os escritores nordestinos, como Zé Lins. Mas, de resto, o depoimento é ótimo. Como são bons os outros depoimentos, de parentes do escritor, de Ariano Suassuna e o de Thiago de Mello, em particular. Thiago narra a agonia e morte de Zé Lins, a quem idolatrava. É uma longa fala, amazônica, oceânica, talvez excessiva, mas testemunha de uma maravilhosa amizade entre os dois escritores. Muito emocionante. O documentário, com seus defeitos, é ótimo, e foi aclamado pelo público do Festival de Brasília. Dá vontade de reler Zé Lins, que foi um artista de palavra como poucos neste país.