O Engenho de Zé Lins
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O Engenho de Zé Lins

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2007 | 18h39

zelins
José Lins do Rego, um flamenguista de fervor religioso

O diretor Vladimir Carvalho usou uma tática inusitada de promoção para seu novo filme, O Engenho de Zé Lins. Com a ajuda de universitários, distribuiu cerca de 30 mil panfletos do lado de fora do Maracanã, antes do jogo do Flamengo contra o Atlético Paranaense. Do lado de dentro do estádio, conseguiu que o placar eletrônico desse chamadas, durante o intervalo, para a estréia do filme. ‘Por sorte o Mengo venceu por 2 a 0’, diz Vladimir, ‘senão a propaganda poderia ter sido negativa’.

Tudo se explica quando se sabe que o personagem do filme, se não chegou a ser um jogador rubro-negro famoso como Leônidas da Silva ou Zico, foi, sim, um flamenguista histórico. José Lins do Rego, Zé Lins, para os amigos, era paraibano de nascença, mas adotou o Rio como moradia e o Flamengo como pátria. O escritor de obras-primas como Menino de Engenho e Fogo Morto foi torcedor fanático e dirigente do clube carioca.

Uma boa parte do filme é dedicada a essa relação de José Lins do Rego com o futebol, e o Flamengo em particular. E não sem motivo. ‘O futebol servia para Zé Lins se equilibrar um pouco, ele que vivia sempre tentado pela depressão’, diz o diretor Vladimir Carvalho em conversa por telefone com o Estado. Vladimir cita uma definição genial de Otto Maria Carpeaux: ‘Zé Lins é um homem são em busca de uma doença.’

Mas o que Zé Lins tentava compensar com o futebol, de que doença, imaginária ou real tentava se curar? Qual o seu déficit, qual sua falha? Difícil dizer, porque a intimidade de uma pessoa, mesmo a de um grande escritor que se revela em suas obras, é o segredo mais bem guardado do mundo. Pode-se conjecturar. E o filme revela um desses segredos guardados a sete chaves, mas tornado público pelas parentes do escritor: criança, menino de engenho, Zé Lins, brincando com uma arma, matou sem querer um amiguinho de infância. O acidente o traumatizou. A família nunca tocava no assunto e obrigou a todos ao silêncio obsequioso sobre o assunto. O próprio Zé Lins jamais falou nesse fato, como afirma no filme uma de suas filhas.

É com grande habilidade – e delicadeza – que Vladimir introduz essa morte involuntária no texto do filme e a coloca em circulação, ouvindo as próprias pessoas da família, mas também amigos de Zé Lins, como o poeta Thiago de Mello, e outros escritores como Ariano Suassuna e Carlos Heitor Cony. Suassuna diz que agora compreendia as súbitas mudanças de humor do romancista, que ia da euforia à depressão de forma tempestuosa.

Aliás, é dos depoimentos muito abertos, lúcidos e emotivos, que O Engenho de Zé Lins tira sua força maior. Em especial, o do poeta Thiago de Mello, que conviveu muito com o escritor e o acompanhou até a morte. A descrição da agonia do amigo é longa, comovente, inesquecível. ‘Tive ainda de tirar muita coisa da fala do Thiago’, conta Vladimir.

O diretor, que é paraibano como Zé Lins, conta que teve contato com sua obra desde cedo. ‘Meu pai adorava seus livros e lia trechos para nós, à noite. Acabei me tornando fanático por sua obra.’ Vladimir acha que, nos 50 anos de sua morte, Zé Lins anda relativamente esquecido como personagem e sua obra literária está um tanto jogada para segundo plano. Não é difícil explicar, entende o diretor: ‘Ele morreu moço, com apenas 56 anos. Saiu de cena muito cedo e isso cobra seu preço’, diz Vladimir. Talvez o filme nos ajude a prestar mais atenção a ele. Zé Lins merece.

(SERVIÇO)Serviço O Engenho de Zé Lins (Brasil/2006, 80 min.) – Documentário. Direção de Vladimir Carvalho. Livre. Cotação: Ótimo

(Caderno 2, 14/12/07)

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