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O enfant terrible da nouvelle vague: entrevista com Luc Moullet

Luiz Zanin Oricchio

02 de fevereiro de 2011 | 09h28

Luc Moullet, hoje com 73 anos, foi um dos enfants terribles dos Cahiers du Cinéma. Como a revista não era exatamente conhecida por evitar a polêmica (muito pelo contrário, a buscava até como forma de auto-promoção), Moullet, que lá começou a escrever aos 18 anos de idade, sentiu-se um peixe em águas familiares. Um tubarão, na verdade, com sua pena temível e gosto pelas polêmicas. Como tantos outros críticos dos Cahiers – a começar pelos mais famosos, Truffaut, Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer – Moullet iniciou a carreira escrevendo sobre cinema e terminou por dirigir seus próprios filmes.

De pouca circulação fora da França, sua obra, composta de dez longas-metragens e inúmeros curtas, poderá ser conhecida a partir de hoje, quando começa a retrospectiva do CCBB em sua homenagem. O diretor estará no Rio dia 11 e em São Paulo dia 16 para encontros com o público,no Centro Cultural Banco do Brasil. É a segunda vez que Moullet visitará o Brasil. Aqui esteve, em 1986, para uma “miniretrospectiva, no Rio de Janeiro. Desta vez, ganhará mostra completa. Moullet conversou com o Estado, por telefone, de sua casa em Paris.

Você é conhecido como cineasta, mas talvez ainda mais como crítico de cinema na fase de ouro dos Cahiers du Cinéma. Acha que ser um crítico prepara terreno para a pessoa se tornar cineasta?
Sem dúvida. Houve uma época em que era muito difícil para um jovem se tornar diretor de cinema. Estamos falando de 1955, por aí. Escrever críticas era um primeiro passo, enquanto se aguardava a chance de dirigir. A partir de 1958-59 tudo ficou muito mais fácil.

Essa foi uma conquista da nouvelle vague, não? Dar oportunidade aos jovens críticos de se iniciar na realização…

Depois do sucesso de Os Incompreendidos (Truffaut), Acossado (Godard) e Os Primos (Chabrol), os produtores vinham de joelhos implorar aos outros críticos dos Cahiers que se iniciassem na direção (risos).

Você acha que todo crítico aspira à realização ou isso é um mito?

De maneira nenhuma. Grandes críticos não dirigiram e nem quiseram se tornar cineastas, como é o caso de André Bazin, que tinha um projeto de documentário aos 37 ou 38 anos, mas acabou não o fazendo. Há exemplos em toda parte. Nos Estados Unidos, por exemplo, Bill Khron jamais quis fazer filmes. Ser crítico e depois realizar é antes a exceção do que a regra.

Falemos um pouco do seu cinema, já que você é um crítico que se tornou cineasta. Sente-se influenciado pelo chamado cinema B americano?

Não apenas. Entendo que meus filmes se ligam à cultura inglesa, sobretudo ao humor inglês.

Há também a ligação com Jacques Tati e Alfred Jarry, não?

Sim, dizem que sou muito ligado a Jarry porque gostávamos de andar de bicicleta juntos (risos).

Soube também que você admira o trabalho do brasileiro Jorge Furtado, não por acaso um diretor que trabalha bastante no registro do humor crítico. O que conhece dele?

Conheço todos os curtas e os três primeiros longas. Tenho grande admiração por Jorge, em especial pelo curta Ilha das Flores. Vi outro dia também A Matadeira (NR. Sobre um episódio de Canudos ) e também um curta sobre uma pessoa que tenta voltar à sua casa em Porto Alegre e encontra muitos obstáculos para isso, pois tudo está cercado pela obsessão da segurança – Ângelo Anda Sumido.

Quais outros realizadores brasileiros você conhece?

Infelizmente, só os do passado. Gosto muito do primeiro filme de Sérgio Ricardo (Este Mundo É Meu, 1964), os filmes de Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra e, claro, de Glauber Rocha. O recente, não conheço – à parte Furtado.

Uma de suas grandes polêmicas na época dos Cahiers foi a defesa apaixonada de Samuel Fuller, que a crítica de esquerda considerava fascista. Como foi essa história?

Ele havia feito cinco filmes considerados anticomunistas. Mas era um anticomunismo bastante abstrato, é bom dizer. Ele era, acima de tudo, um provocador. Era um iconoclasta, e grande realizador.

Hoje, Fuller é um cineasta bastante admirado pelos cinéfilos, mesmo aqui no Brasil.

Sim, aliás, ele filmou no Brasil, um filme jamais concluído, Tigrero, nas florestas do Araguaia, em Mato Grosso. Há imagens rodadas numa região não muito distante de Brasília, eu acredito. Encontramos algumas dessas imagens de Tigrero em seu filme Shock Corridor (Paixões que Alucinam, 1963).

Você o considera um cineasta contemporâneo? Ou datado?

Todos os grandes cineastas têm um valor contemporâneo, eu penso. Por exemplo, ele fez filmes sobre a loucura, e a loucura é muito presente no nosso mundo atual.

E às vezes os debates políticos se circunscrevem ao seu tempo.

Foi o caso. Alguns dos filmes de Fuller não puderam estrear na França da época, bastante dominada pela cultura comunista. Depois do Arquipélago Gulag (obra de Soljenitsen), essas posições se tornaram bastante mais moderadas, para dizer o mínimo. E temos de lembrar que ele fez filmes antirracistas também, como The White Dog (1982).

Mas você acha que o cinema político ainda tem lugar no panorama do cinema contemporâneo, ou são lutas passadas?

Têm lugar sim. Só para voltar a Furtado: Ilha das Flores e a Matadeira têm valor político. Não se trata de pensar em partidos políticos, mas de comentários sobre a situações política e econômica mundial. Além disso, nesse particular, devemos desconfiar dos filmes que se sustentam apenas por seu conteúdo, por melhor que ele seja, sem consideração para com a linguagem cinematográfica. Estes sim são datados.

Não é o caso de Godard, não é mesmo?

Godard sempre se reinventa. Basta ver seu recente Film Socialisme, sempre plugado no presente e experimentando com o vídeo e as texturas de imagem.

Uma obra que merece ser vista

Pouco conhecida no Brasil, a obra de Luc Moullet tem tudo para surpreender – e favoravelmente. Trabalhando com o humor, com a paródia e a citação, faz leitura bastante particular de personagens conhecidos ou situações banais. Um exemplo são As Aventuras de Billy the Kid, faroeste francês (como o chamaríamos, western camembert?) com o ator cult da nouvelle vague, Jean-Pierre Léaud, no papel do bandido do Novo México. Ou o cômico Brigitte e Brigitte em que duas moças do interior vão estudar em Paris e fazem o possível para não parecerem provincianas.
Moullet vem produzindo desde sua estreia com Brigitte et Brigitte em 1966 e seus filmes tem causado frisson nos festivais, como em Cannes 2009, quando apresentou Terra da Loucura, sobre a alta incidência de doenças mentais nas regiões francesas dos Alpes do Sul, onde ele próprio nasceu. Todos esse filmes serão apresentados, do primeiro ao último. Aliás, o mais recente está fora da lista, por uma boa razão. “Lettre à Gus”, uma carta a Gus Van Sant, pode ser visto diretamente na Internet, no endereço www.arte.tv/blow-up. É um convite, ou melhor, uma sugestão ao cineasta norte-americano de Elefante e Paranoid Park, para que tome como tema para o seu próximo filme a graphic novel The Black Hole, de Charles Burns. O universo de Burns tem tudo a ver mesmo com o de Van Sant. E o curta de Moullet é o máximo. L.Z.O.

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