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O “duende” flamenco de Paco de Lucía

Luiz Zanin Oricchio

04 Julho 2015 | 12h15

 

Há músicos e músicos. Virtuoses maravilhosos, compositores, malabaristas, exibicionistas. De poucos, no entanto, se pode dizer que tenham mudado a direção do gênero que abraçaram. Foi o que aconteceu com Paco de Lucía (1947-2014), que, com sua técnica impecável, mas também com o grão de loucura que caracteriza os inventores, tornou-se  divisor de águas na história do flamenco, a música maravilhosa que vem da Andaluzia. Em Paco de Lucía – La Búsqueda (A Busca), Curro Sánchez, filho de Paco, mostra as várias etapas formativas que fizeram do seu pai um caso único na música espanhola contemporânea.

Bem pesquisado, rico de sons e imagens, mas também de depoimentos de impacto, a começar pelo próprio Paco, o filme é, também, um pouco o percurso moderno do flamenco. Paco conta como seu pai, dentro da pobreza da família e da região (moravam em Algeciras em Gibraltar), trabalhava o dia todo na feira e, à noite, empunhava o violão e ia ganhar alguns trocados tocando pelos bares.

O menino foi precoce e logo, junto com seu irmão Pepe, “cantaor”, pôs o pé na estrada. Uma longa rota, que os colocou como acompanhantes de uma estrela, José Greco, bailarino italiano, que passava por espanhol. Os meninos foram logo notados e o jovem guitarrista foi apresentado a um ídolo das cordas, o mitológico Sabicas, que desde a Guerra Civil se exilara nos Estados Unidos (onde viveu até o fim). Paco diz que o contato com Sabicas foi fundamental, pois este representava a vertente clássica do flamenco. Paco vinha da Espanha sob a influência de outro mestre, Niño Ricardo, mais inventivo, porém menos virtuoso que Sabicas. Um dia, Sabicas lhe disse que um guitarrista não era completo até que fizesse a sua própria música. A frase virou a cabeça de Paco que decidiu “esquecer” seu repertório e começou a compor.

Outro encontro fundamental (“o mais importante de minha vida artística”) foi com o então desconhecido José Monge Cruz (1950-1992), depois famoso sob o apelido de Camarón de la Isla. Provavelmente o mais importante “cantaor” do flamenco contemporâneo, Camarón e Paco formaram uma dupla imortal, que botou o gênero de cabeça para baixo. Como dois visionários que eram, tinham os pés na tradição e olhos voltados para o futuro. Enfrentaram a desaprovação de puristas, porém vestiram o flamenco com as roupas da modernidade e tornaram o gênero capaz de dialogar com as gerações mais jovens.

Na longa entrevista que concedeu ao filho, Paco não se furta a lembrar dessa incompreensão por parte dos tradicionalistas. Foi renegado pelo próprio Sabicas. Este declara ter saído em meio a um concerto de Paco, pois aquilo “não era flamenco”. Mais cruel foi a declaração de Andrés Segovia, provavelmente o maior guitarrista clássico do mundo. Disse que Paco não era tocador nem de flamenco e nem de qualquer gênero – apenas tinha dedos hábeis.

Os tradicionalistas têm seu direito à opinião, mas o fato é que Paco revolucionou o flamenco e abriu novas fronteiras para o gênero. Na verdade, implodiu fronteiras para si mesmo, vindo a tocar com jazzistas como John McLaughlin, Larry Coryell e Al Di Meola. A raiz flamenca estava lá, mas agora, ao caldeirão de referências, incorporavam-se também as figuras tutelares de Charlie Parker e John Coltrone. Paco descobria a felicidade da improvisação, a liberdade que o jazz concede ao músico. Incorporou influências caribenhas na percussão, em particular o uso do “cajón” em seu grupo e adotou uma postura de permanente invenção. Curiosamente, o virtuose do flamenco fez sucesso mundial com uma rumba, Entre dos Águas, hit permanente e carro-chefe em seus concertos.

Mesclando depoimentos e músicas, elogios rasgados e opiniões críticas, Curro traça uma trajetória heterogênea desse músico genial. Passa longe da hagiografia, e jamais esconde o que há de inovador nesse percurso. Além de tudo, o filme é, também, um mergulho profundo na cultura andaluza, na região melting pot de influências hispânicas, árabes e ciganas. Paco fala da pobreza, de como a Andaluzia do seu tempo era a lúmpen da Espanha e de como o flamenco era o lúmpen da Andaluzia. E dessa arte única, que transforma a dor em espasmo de beleza.

Exibições do documentário:

Sábado, 4/7. Cinesesc, às 20h30

Sábado, 11/7. Cinemateca, às 18h