As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O divórcio entre Veneza e os latino-americanos

Luiz Zanin Oricchio

25 de agosto de 2014 | 17h07

Em sua 71ª edição, o Festival de Veneza, o mais antigo evento do gênero no mundo, cozinha sua receita habitual: muitos concorrentes europeus, também muitos norte-americanos, alguns da Ásia. Os latino-americanos costumavam desfrutar de uma pequena parcela de consolação nesse banquete. Este ano, o jejum. Nenhum brasileiro, como já tem sido a regra nas últimas edições, mas também nenhum latino-americano.

Se você for perguntar aos selecionadores da mostra as razões desta ausência, a resposta será padrão: não existem “cotas”. O critério único é a qualidade. Mas não é verdade. Pelo menos, não toda a verdade. Existem zonas de influência em todos os festivais e cinematografias periféricas só conseguem penetrar nesse clube fechado quando se tornam modas – que, como as modas, dificilmente duram mais de uma estação. Já houve uma moda argentina, depois veio o Chile, etc. No Festival de Veneza 2014 o Brasil comparece apenas com o curta Castillo y El Armado, uma animação gaúcha de Pedro Harres.

De qualquer forma, Veneza abre sua festa com um diretor mexicano – Alejandro González Iñarrítu – devidamente reciclado numa produção estadunidense. Birdman – or the Unexpected Virtue of Ignorance traz Michael Keaton como o artista que interpretava um super-herói e agora precisa lutar contra o próprio ego para salvar a família e a si mesmo. Iñarrítu é diretor de talento, surgiu com um título forte, Amores Perros (Amores Brutos, no Brasil) e logo foi cooptado pela indústria do país vizinho. Birdman abre amanhã (quarta-feira, dia 27 de agosto) a Mostra e integra a competição pelo Leão de Ouro. Serão 20 longas em busca dessa bonita estatueta, uma das mais desejadas no calendário internacional do cinema.

Olhando-se a seleção mais de perto, nota-se que Alberto Barbera, em seu segundo ano à frente da Mostra, busca um equilíbrio entre nomes mais conhecidos e outros menos. Entre os primeiros, há o turco-alemão Fatih Akin (The Cut), o francês Xavier Beauvois (Le Rancon de la Gloire), o norte-americano Abel Ferrara (Pasolini), o russo Andrei Konchalovsky (The Postman White Nights) e o italiano Mario Martone (Il Giovane Favoloso).

Destes, a maior curiosidade talvez seja a despertada por Abel Ferrara e sua recriação da vida de Pier Paolo Pasolini, o cineasta, ator, escritor, poeta, ensaísta e polemista italiano, assassinado em 1975 na praia de Óstia por um garoto de programa. O poeta maldito, ícone de uma geração contestadora, será interpretado por Willem Dafoe, grande ator sem dúvida, e corajoso na abordagem de papeis difíceis. Basta vê-lo em filmes de Lars Von Trier, por exemplo, como Anticristo, para saber do que é capaz. De Ferrara, por outro lado, espera-se que tenha recuperado a inspiração depois do horrendo Bem-Vindo a Nova York, em que faz Gérard Depardieu interpretar um caricato Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor do FMI e ex-candidato a presidente da França caído em desgraça após acusação de assédio sexual nos Estados Unidos.

O italiano Mario Martone também se interessa por um personagem real – o poeta Giacomo Leopardi – em Il Giovane Favoloso. Lembremos que Leopardi foi fonte de inspiração para Federico Fellini em seu último trabalho, A Voz da Lua. No filme de Martone, quem encarna o poeta é o ator Elio Germano (de Nossa Vida).
Há nomes que dizem pouco, à primeira vista, como o do sueco Roy Andersson, que apresenta em Veneza um título tão insólito quanto A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence. Bem, mas quando lembramos que ele fez certo sucesso de estima entre o público da Mostra de São Paulo com o estranhíssimo, mas muito bom, Nós os Vivos, podemos esperar algo de original sobre um pombo pousado num ramo a refletir sobre a existência.

Da França vêm filmes em tese também muito interessantes, como este Loin des Hommes, de David Oelhoffen, com Viggo Mortensen. Trata da revolta argelina contra os franceses e se diz uma livre adaptação de Albert Camus, o grande escritor de A Peste e A Queda, entre outros. Também francês é Three Hearts, de Benoit Jacquot, com Charlotte Gainsbourg, Catherine Deneuve e sua filha Chiara Mastroianni. Em todo caso, se elas vierem, charme não faltará ao Lido.

Enfim, atrações não faltam, mesmo fora de concurso, como O Velho do Restelo, que Manoel de Oliveira, o grande diretor português de 105 anos de idade tirou da épica de Luis de Camões. Ou James Franco, que será homenageado com o prêmio Jaeger La Coutre e apresenta sua versão de O Som e a Fúria, de William Faulkner. Só Deus, ou o diabo, podem dizer o que Franco realizou com o texto magistral de Faulkner. Veremos.

Na entrevista coletiva concedida para a apresentação da edição deste ano, Barbera, ao responder à pergunta sobre o que se poderia esperar da seleção proposta, disse simplesmente: “o inesperado”. Informou que os 55 longas-metragens inéditos, distribuídos pelas diversas seções do festival, foram escolhidos a dedo, a partir de 1500 filmes inscritos. Disse que Veneza se via obrigada às vezes a descartar pretendentes muito bons, isso por ser um festival de tradição e muito seletivo – alfinetada na mostra de Toronto, que acontece simultaneamente do outro lado do Atlântico e é acusada de muito comercial pelos puristas. Esperemos,de nossa parte, que esse inesperado a que se refere Barbera seja composto de boas surpresas.

Clássicos restaurados

Um festival não é feito apenas de filmes novos e inéditos. Haverá em Veneza 55 títulos recentes a serem desfrutados pelo público. Mas uma das seções mais procuradas da Mostra chama-se Venice Days e compõe-se de clássicos restaurados. Filmes antigos. A seção aposta no prazer que os cinéfilos experimentam em rever filmes do passado, talvez hoje facilmente disponíveis em DVD ou em downloads. Mas vê-los na tela grande, em cópias novinhas em folha, é outra coisa. Uma experiência e tanto, inigualável, e é por isso que o cinema, apesar de tudo, continua a ser uma arte gregária, que se frui numa sala escura e junto com outras pessoas. O cardápio deste ano contém iguarias como Beijos Roubados (François Truffaut, 1968), Eles e Elas (Joseph Mankiewicz, 1955), A China Está Próxima (Marco Bellocchio, 1967), Um Certo Capitão Lockhart (Anthony Mann, 1955) e Mouchette (Robert Bresson, 1967), entre outros. Essas sessões, além de serem um presente para os cinéfilos, muitas vezes funcionam como constrangedores parâmetros de comparação com os filmes da competição.

 

Veneza 71 – Filmes em competição

1) “The Cut,” Fatih Akin (Alemanha)
2) “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence,” Roy Andersson (Suécia)
3) “99 Homes,” Ramin Bahrani (EUA)
4) “Tales,” Rakhshan Bani E’temad (Irã)
5) “La rancon de la gloire,” Xavier Beauvois (França)
6) “Hungry Hearts,” Saverio Costanzo (Itália)
7) “Le dernier coup de marteau,” Alix Delaporte (França)
8) “Pasolini,” Abel Ferrara (França, Itália)
9) “Manglehorn,” David Gordon Green (EUA)
10) “Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)” Alejandro Gonzales Inarritu (EUA)
11) “Three Hearts,” Benoit Jacquot (France)
12) “The Postman’s White Nights,” Andrei Konchalovsky (Rússia)
13) “Il Giovane Favoloso,” Mario Martone (Itália)
14) “Sivas,” Kaan Mujdeci (Turquia)
15) “Anime Nere,” Francesco Munzi (Itália)
16) “Good Kill,” Andrew Niccol (EUA)
17) “Loin des hommes,” David Oelhoffen (França)
18) “The Look of Silence,” Joshua Oppenheimer (Dinamarca, Grã-Bretanha)
19) “Nobi,” Shinya Tsukamoto (Japão)
20) “Red Amnesia,” Wang Xiaoshuai (China)

Tudo o que sabemos sobre:

Festival de Veneza 2014

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.