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O divertido duelo entre o humor e a opressão

Luiz Zanin Oricchio

28 Maio 2007 | 20h00

Hoje, às 21h30, Escola do Riso será debatido no CineSesc, em mesa com a presença de críticos de cinema e do professor de História da USP, Elias Thomé Saliba. A participação de Saliba é amplamente justificada, sendo ele autor de um volume intitulado Raízes do Riso – A Representação Humorística na História Brasileira: da Belle Époque aos Primeiros Tempos do Rádio (Companhia das Letras/2002).

Escola do Riso, de Mamoru Hosi, trabalha com elementos mínimos. A situação cênica é quase sempre a mesma: a sala de um censor, onde um dramaturgo procura o carimbo de liberação para uma paródia de Romeu e Julieta. E aí começam seus problemas, pois o Japão está para entrar em guerra e o censor entende que uma obra de autor britânico – mesmo clássico, como Shakespeare – não seria adequado para a época.

Não sabemos se Mamoru Hosi é leitor de Jorge Luis Borges, mas talvez tenha ouvido falar sobre a frase sarcástica do argentino, que dizia ser a censura no fundo uma boa coisa, porque força o artista a apurar a obra. Ou seja, o obriga a elipses e metáforas, e o tira do caminho do óbvio. Borges foi muito estigmatizado por boutades desse tipo, mas também não precisava ser tomado ao pé da letra. De qualquer forma, é o censor do filme quem deseja tomar o pobre autor ao pé da letra, como demonstra o seguinte diálogo:

Censor: Um autor ocidental é inadmissível em nossos dias.

Dramaturgo: Romeu e Julieta eram italianos. Assinamos um tratado com a Itália. São nossos aliados.

Censor: E qual era a nacionalidade de Shakespeare?

Dramaturgo: Ele era inglês.

Censor: Concorda que a Grã-Bretanha é nossa inimiga?

Dramaturgo: Sim.

Censor: Imaginemos Churchill fazendo sushi. Comeria um sushi feito por Churchill?

Admitamos que o censor colocou o dramaturgo contra a parede. E será assim ao longo da história, já que o censor se torna um co-autor ativo da trama. Por que achamos essa situação engraçada? Creio que o riso provém do estranhamento daquilo que vemos – alguém cujo trabalho é vetar o texto alheio acaba aperfeiçoando-o com suas exigências extravagantes. Algo parecido aparece no também divertido Tiros na Broadway, de Woody Allen, no qual o gângster vivido por Chazz Palminteri dá palpites felizes para a peça sobre a Máfia que John Cusack está escrevendo.

São ambos casos de co-autoria involuntária. Em Escola do Riso, o censor Sakisaka é vivido por Kôji Yakusho, e o dramaturgo Taubaki, por Goro Inagaki. Dois ótimos atores, com destaque para Yakusho, que interpreta com perfeição o tipo carrancudo que não apenas não vê qualquer graça na peça do jovem dramaturgo como não vê motivo para riso em coisa nenhuma do mundo.

Esse é o delicado mecanismo de Escola do Riso. Uma relação intersubjetiva entre alguém que está tentando aprovar um trabalho e outro que tem por missão inviabilizá-lo, processo no qual ambos se modificarão. O censor não deseja simplesmente atirar no lixo o trabalho do outro; sua idéia fixa parece ser inviabilizá-lo pela exaustão. Só que o outro não se mostra disposto a entregar os pontos com facilidade.

Adaptado de uma peça teatral, Escola do Riso não esconde sua origem. Não se trata de desvantagem. Como num palco, usando praticamente um cenário único, e dois belos atores, Mamoru Hosi consegue levar para a tela essa briga de gato e rato entre a opressão e o humor. Sem ser piegas, insinua que o resultado dessa luta é sempre incerto, e as conquistas, provisórias.

(SERVIÇO)
Escola do Riso (Warai no Daigaku, Japão/2004, 121 min.) – Comédia. Dir. Mamoru Hosi. 12 anos. CineSesc – 14h30, 16h45, 19 h, 21h15 (hoje, 21h15, debate sobre o filme com mediação de Maria do Rosário Caetano). Cotação: Bom