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O discreto charme dos técnicos

Luiz Zanin Oricchio

13 de setembro de 2011 | 20h02

À distância, sigo o futebol brasileiro e fico sabendo que Felipão está na berlinda com a torcida palmeirense, por causa dos três a zero que tomou do Internacional. Digo “à distância” porque, como sabe quem tem a infinita bondade de acompanhar esta coluna, curto uma breve temporada de trabalho na Itália. E, aqui, procuro seguir tanto o que se passa no futebol brasileiro quanto no Calcio, que começou há pouco suas atividades.

O futebol italiano ainda não pegou no breu, mas, mesmo assim as mesas redondas dos domingos já ficaram quentes. Muito por causa dos resultados da primeira rodada. Enquanto a Internazionale começou apanhando (3 a 4 diante do Palermo), a Juventus enfiou sua primeira goleada, 4 a 1 sobre o Parma, com uma atuação de gala de Pirlo.

Enfim, esses resultados já garantiam mesas redondas efervescentes. Esses programas se parecem muito com os brasileiros do mesmo gênero – ou será que são os brasileiros que se parecem com eles? Jogadores convidados, comentaristas fixos, e uma mulher bonita também obrigatória. Antes, elas não entravam no mundo machista do futebol. Agora não se faz nada sem elas, nem futebol – o que é ótimo.

Bem, e há os técnicos. Aqui há uma diferença. Na Itália, todos, ou quase, aparecem vestidos como se fossem a um casamento. Na noite de domingo, era Gian Piero Gasperni quem estava no programa com a árdua missão de justificar a derrota, e ainda mais de goleada, o que é inadmissível para um verdadeiro time italiano. (Se é que a Inter é um time italiano, mas esta é outra história). De qualquer forma, Gasperini lá estava, elegantíssimo no trajar e no falar.

E aqui voltamos a Felipão e aos técnicos brasileiros. Uma vez, queimando a cabeça para entender como podiam ganhar tanto dinheiro, tive uma luz, ou algo assim. Na minha ideia, eles fariam muito mais do que simplesmente treinar jogadores, escalar um time e conduzi-lo durante um campeonato. Teriam um valor simbólico inestimável. Ou estimável apenas na ordem das grandes cifras. Seriam, no melhor dos casos, representantes do sentido profundo de um clube. Há toda uma ritualística dos técnicos de futebol e, por isso, na Europa, eles se parecem tanto com a própria concepção que se tem do jogo. Algo meio grandiloquente, organizado, uma corporação, solene como o hino da Champions League. É um futebol de terno e gravata, que gira milhões e milhões de euros. Seus representantes – os técnicos – não poderiam se apresentar à paisana, vestidos de qualquer jeito. Seria uma anomalia.

Quem tenta, ou tentou fazer esse gênero no Brasil foi Vanderlei Luxemburgo. Mesmo que parecesse pouco à vontade em seus ternos, às vezes usado sob temperaturas africanas, Vanderlei fazia questão de vesti-los, e isso no auge de sua carreira. A notação simbólica me parece muito clara: ele era tão bom que acabaria indo treinar um time na Europa. A indumentária já estava pronta, faltava o convite. E este acabou vindo, mesmo que a experiência com o Real Madrid não tenha sido das melhores.

Técnicos como Felipão ou Muricy pertencem a outro universo. Salvo engano, mesmo trabalhando tanto tempo na Europa, Scolari sempre usou o agasalho esportivo do clube ou da seleção que treinava. É um dado importante. Se ternos bem cortados passam confiabilidade, uniformes significam identificação de quem o usa com seu clube.

O técnico de terno é um executivo de alto escalão; o de uniforme é quase um torcedor. É toda uma simbologia. Felipão conhece o ritual. Com aquele seu jeitão esperto, Murtosa ao lado, malandramente tosco, é um fino estrategista político. Sabe operar nos bastidores e pode ser capaz de sacrificar um indivíduo para unir um grupo. Parece talhado sob medida para o Palmeiras, time de origem italiana e que portanto ressoa em sua cultura profunda os ensinamentos de um Maquiavel ou de um César Bórgia. Se essa identidade entre ele e o clube se quebrou, algo de grave está acontecendo.

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