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O dilema cubano entre ficar e partir

Luiz Zanin Oricchio

24 de abril de 2010 | 12h05

Memórias do Subdesenvolvimento situa-se na dialética entre o ir e o ficar, parte integrante da história cubana. O filme, de Tomás Gutiérrez Alea, foi feito em 1968 a partir do romance de Edmundo Desnoes. O próprio Desnoes trabalhou no roteiro e, a partir do filme, voltou ao romance e introduziu modificações ao texto. Como explica sua tradutora no Brasil, Elen Döppenschmitt, “ele acrescentou parte dos textos do roteiro como capítulos extras à obra original”. São obras que interagem, livro e filme.

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Sérgio, um intelectual, é o protagonista do romance de Edmundo Desnoes filmado por Gutiérrez Alea

Uma cena importante, que apareceu primeiramente no longa (existe uma excelente cópia dele em DVD, lançada pela VideoFilmes). Em determinado momento, o protagonista Sergio (Sergio Corrieri) visita, com a namorada Elena (Daisy Granados), a casa onde viveu Ernst Hemingway, na Finca Vigía, perto de Havana, depois transformada em museu. As relações entre o escritor americano e Cuba são míticas. Quem entra no bar Floridita vê um busto em gesso no lugar onde ele se acomodava para beber seus daiquiris. Existem fotos de Hemingway com Fidel quando os dois se dedicavam à pesca de marlins. E há uma estátua erigida por pescadores para celebrar o Prêmio Nobel conquistado pelo autor de O Velho e o Mar – aliás uma história cubana, que, adaptada para o cinema (por John Sturges), deu a Papa Hemingway dinheiro suficiente para comprar a Finca Vigía, onde viveu alguns anos.

Apesar de tudo isso, constata Sergio, Hemingway não amava Cuba. Não havia na casa livros em espanhol nem nada que lembrasse a cultura da ilha, apenas botas, varas de pescar, troféus de caça, carabinas, lembranças da Espanha e de outros países onde ele havia morado. A cena toda provoca uma sensação de estranhamento, como se os mitos mais arraigados não fizessem tanto sentido assim. E esse é o tom geral do filme. A cena toda não está na primeira edição do livro. Desnoes incluiu-a depois, bem como alguns contos que não fazem parte das primeiras edições. Work in progress.

O personagem Sergio foi pensado para expressar esse sentimento de alienação em relação ao próprio meio. A narrativa começa assim, de maneira objetiva: em 1961 muitas pessoas deixam a ilha para viver no exterior. Sergio é casado. Acompanha a mulher ao aeroporto. Ela vai embora, ele fica. Existe uma revolução em curso, ele quer ver o que acontece. Nada daquilo lhe diz qualquer coisa e todo o seu, digamos assim, percurso existencial, se dará sob a forma de uma indagação: Cuba será capaz de livrar-se do subdesenvolvimento, ou este é uma condição inarredável? Essa meditação dita os passos do personagem. Inclusive sua relação (desastrosa) com Elena, moça do povo. Claro, esse relacionamento se dá sob a forma simbólica da união entre diferentes já numa sociedade sem classes. Mas essa forma simbólica, que seria apaziguadora, é fraturada pela sequência dos acontecimentos. Não existe nada de unidimensional na poética de Desnoes e de Alea. Pelo contrário, tudo é problematizado, e ao extremo. Da revolução às certezas do capitalismo.

Destinos. Os caminhos dos dois artistas se fracionam segundo o curso da história. Ambos – Desnoes e Alea – apoiam a revolução no primeiro momento. Alea seguirá sempre como um apoiador – crítico – do governo cubano. Tanto assim que, além de Memórias do Subdesenvolvimento, tem obras como A Morte de um Burocrata (1965) e continuará nessa linha até seus últimos filmes, Morango e Chocolate (1994) e Guantanamera (1995). Morre em 1996, sem deixar a ilha.

Já Desnoes permanece em Cuba durante os primeiros anos da revolução porque ainda havia liberdade intelectual, segundo seu depoimento. Sai depois que o Partido Comunista assume a direção da cultura e vai então morar nos Estados Unidos, quer dizer, no país arqui-inimigo dos irmãos Castro e da nomenclatura. Mas não se une aos grupos dos contras de Miami. Situa-se em posição intermediária, dá aulas em Stanford, na Califórnia, e depois passa a viver na outra costa, em Nova York.

É lá que escreve essa espécie de continuação da sua obra, chamada agora de Memórias do Desenvolvimento. Uma reflexão sobre o Primeiro Mundo, que complementa e comenta, criticamente, aquela meditação sobre o Terceiro Mundo, escrita na voragem dos embates ideológicos da Guerra Fria. Agora, há um personagem, que se chama exatamente… Edmundo Desnoes e recebe nos Estados Unidos a visita de sua filha, Natália, que havia ficado em Cuba. Elen Döppenschmitt, que traduziu Memórias do Subdesenvolvimento, verteu para o português o epílogo de Memórias do Desenvolvimento, intitulado Agora É Minha Vez e recém-publicado pelo Memorial da América Latina (como o anterior, de 2008). Há um esclarecimento de ordem prática a ser feito. Obteve-se autorização apenas para a tradução e publicação do epílogo para que o livro completo saia depois por outra editora.

Essa continuação deverá também virar filme, a exemplo do que aconteceu com o primeiro livro. Tanto assim que, o volume publicado pelo Memorial inclui o epílogo e sua transposição para forma de roteiro cinematográfico. Este vem assinado pelo próprio Desnoes e por Lorenzo Regalado. Será dirigido pelo cubano Miguel Coyula.

Desnoes já se definiu como uma ponte entre duas culturas. É cubano e vive nos EUA. É contra um regime que se esclerosou mas não é contra a ideia do socialismo. É contra a maneira como Cuba é dirigida mas não é contra o país. Sua ficção tenta digerir esses contrários. Natália é a moça cubana, que deseja ver seu pai, que vive no exterior e está doente. Este também tem curiosidade em relação à filha e a relação entre os dois pode ser vista como incestuosa. O incesto, ou sua insinuação, pode ser visto como tentativa desesperada de unir as duas pontas de um desejo contraditório que fragmenta a população cubana desde os tempos heroicos da revolução: ficar na ilha, com tudo o que isso implica de adesão e sacrifício, ou partir e perder-se de si mesmo. Quem puder, desate esse nó – e talvez o filme por vir tente fazê-lo.

(Sabático, 24/4/10)

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