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O dia em que Bush morreu

Luiz Zanin Oricchio

07 de março de 2008 | 21h00

Gabriel Range é o cineasta britânico que ensaia uma ousada ficção histórica – o que aconteceria caso George W. Bush fosse assassinado, à maneira de John Fitzgerald Kennedy? Primeiro, é preciso constatar que Range, que tem experiência no ramo documental, trabalha bem nessa modalidade tantas vezes visitada pelo cinema que é o falso documentário. Quer dizer, a utilização de meios e estilos do assim chamado ‘cinema do real’ para fins de ficção.

No caso, meios convencionalmente jornalísticos – o dia fatal para Bush é mostrado em detalhes, da visita a Chicago, a preparação do seu discurso a empresários, as manifestações hostis, entrevistas com a segurança do presidente. Range usa e manipula imagens reais de Bush e Cheney, além de cenas de manifestantes contra a Guerra no Iraque, mescladas a outras ficcionais.

Essa busca da verossimilhança acompanha o filme o tempo todo, da premissa – o falso assassinato – às conseqüências, como a perseguição aos culpados de sempre e o julgamento. Tudo isso num quadro de endurecimento político com o acréscimo de cláusulas ao já antidemocrático Patriotic Act, lei de exceção que de fato vigora no pós-11 de setembro sob pretexto de combate ao terrorismo.

Como se propõe, A Morte de George W. Bush flutua entre fatos conhecidos – os atentados de 11 de setembro, a reeleição de Bush, a invasão do Iraque, etc. – e introduz esse único elemento fictício, o assassinato de um presidente americano, talvez o menos amado de que se tem notícia recente. Com que finalidade?, pode-se perguntar. Bem, uma resposta é que esse elemento ficcional permite amplificar os fatos, colocar sobre eles uma espécie de lente de aumento, que os torna maiores, mais nítidos e evidentes.

Esses ‘fatos’, assim colocados entre aspas porque não existem fatos puros, mas a sua interpretação em um contexto, se referem a mudanças internas da sociedade norte-americana, afetada pela alegada luta contra o terrorismo. Range não se preocupa em demonizar a figura de Bush, mesmo porque Bush se encarrega disso melhor do que ninguém. Apenas mostra, com sua lupa ficcional, vale insistir, como a atitude belicosa e unilateral da potência afeta não apenas o país por ela invadido e, por tabela, o resto do mundo, mas provoca efeitos deletérios dentro de sua própria casa.

Entre essas seqüelas, desponta a esperta administração do medo público. Assim foi feito em várias ditaduras (incluindo a brasileira) e também na grande democracia americana. Essa ‘terapia do medo’ já fora evocada no belo filme de George Clooney Boa Noite, e Boa Sorte, ambientado no período negro do macarthismo. Recebe outra leitura agora com esse documentário falso e, no entanto, cheio de verdade. O filme é uma advertência. Afinal, existe uma maneira civilizada de ‘matar’ políticos indesejáveis. Não pelas armas, mas pelo voto.

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