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Encarnação do Demônio

Luiz Zanin Oricchio

11 de julho de 2008 | 09h55

PAULÍNIA

E uma das grandes atrações do Festival de Paulínia tornou-se de fato um acontecimento. Encarnação do Demônio, a volta em grande estilo de José Mojica Marins, virou um filme-evento na cidade. Não apenas pela expectativa da “ressurreição” do personagem famoso de Mojica, o Zé do Caixão, mas pela presença maciça da equipe no palco do Theatro Municipal e, sobretudo, pela performance de Mojica, devidamente caracterizado – unhas enormes, traje preto, capa, cartola. Uma figuraça.

Mojica, ou melhor, Zé do Caixão, fez um discurso de uns 15 minutos no palco. Lembrou que Encarnação do Demônio é um projeto dos anos 60, que fecha a trilogia formada por À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Lembrou que os possíveis produtores do fim da trilogia foram morrendo um a um, como que atingidos por alguma maldição. E que, quando recebeu o convite do produtor e montador Paulo Sacramento, perguntou se ele era casado. Diante da resposta afirmativa, ficou aliviado: “É gente demais para morrer”.

E foi assim, vivos e sãos que os participantes da mais recente aventura de Zé do Caixão estrearam em Paulínia, sob risos, aplausos antes, durante e após a projeção, pedidos para que as crianças fossem retiradas da sala e advertências sobre os efeitos deletérios do filme sobre mulheres grávidas. No final da fala, Mojica apontou o dedo, ou melhor, a unha, para a platéia e vociferou: “Meu filme continuará em seus pesadelos”. A galera foi à loucura.

E é assim com Mojica e sua obra. Fica-se entre o fascínio e o asco; entre o medo e o riso. Mas não se fica indiferente. Como se sabe, Mojica é um “case” entre a crítica e o público brasileiro. Há uma seita que o idolatra, que tem entre seus sacerdotes o diretor Carlos Reichenbach e contava entre os oficiantes com o cineasta Rogério Sganzerla e o crítico Jairo Ferreira, ambos falecidos. Aliás, o filme é dedicado aos dois. Entre os devotos contemporâneos, Paulo Sacramento e Dennison Ramalho, este co-roteista do filme, junto com Mojica. Foi por iniciativa deles que Mojica, um prócer do cinema de horror trash, pôde, pela primeira vez na vida, contar com produção de primeira: montagem de Paulo Sacramento, fotografia de Zé Bob, música de André Abujamra – três dos melhores profissionais brasileiros nessas técnicas. Os produtores são os irmãos Fabiano e Caio Gullane, responsáveis por filmes como Carandiru, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e Chega de Saudade. A poderosa Fox Filmes também entrou no projeto. Em resumo, toda uma operação foi montada para resgate desse ícone do cinema de horror, que estava havia muito tempo sem filmar.

A facilidade de recursos não fez com que Mojica utilizasse técnicas de computador para simular efeitos. “Prefiro o método artesanal mesmo”, diz.
Por método artesanal, entenda-se que as baratas e aranhas são de verdade mesmo e que uma atriz saia do ventre de um porco e a cena se faça com a carcaça de um animal desossado. Algumas das atrizes falaram da dificuldade e dos desafios de trabalhar nessas condições. Enfim, Mojica é hard mesmo e não mudou apenas porque desta vez tinha técnicos em quantidade e qualidade como nunca e porque havia dinheiro disponível. Diz que o filme ficou caro não porque tenha usado computador ou qualquer coisa sofisticada do tipo, mas porque as pessoas desta vez foram bem pagas. “E bem alimentadas”, acrescenta. “Antigamente, o que eles comiam era, no máximo, um sanduíche de mortandela.”

A história de Encarnação do Demônio é a da saída da prisão de Zé do Caixão, depois de 40 anos. O coveiro louco alimenta ainda o projeto de encontrar a mulher que possa conceber seu filho perfeito. Nessa trajetória, o personagem mostra-se com a intensidade que o caracterizou lá atrás, nos anos 70 – truculento, demoníaco, blasfemo, niilista, lascivo – e com mais intensidade ainda do que antes. Um pouco dessa concepção se compreende pela fala de Dennison Ramalho, devoto de Mojica a ponto de chamá-lo de “pai”. Antenado no horror contemporâneo, Ramalho disse que conversou com Mojica e mostrou que ele teria de ser, no século 21, como fora nos anos 60 – “um pé na porta”.

Isso significava filmar as cenas de tortura mais torpes possíveis em nome do choque e do realismo, mergulhar o rosto de uma atriz num tonel repleto de baratas e fazer uso não convencional de uma ratazana para atormentar outra personagem. Isso, entre outras cositas más. Será interessante, também, conferir como se portará diante dessas cenas a parte da crítica que considerou “obscenas” as imagens de tortura política em Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton. Só para checar.

Dito isso, Encarnação do Demônio é um filme que tem algumas cenas e seqüências estupendas, de um visual intenso e gótico. Por exemplo, as aquelas em que Zé do Caixão faz amor com uma candidata a gerar seu filho, quando uma chuva e depois uma enxurrada de sangue vêm coroar o orgasmo. Depois, as cenas no inferno, com visual que lembra as telas de Brueghel, oficiadas por ninguém menos que José Celso Martinez Corrêa. As seqüências finais também são belas e intrigantes.

Enfim, trata-se de filme invulgar, dirigido para um gosto particular. Quem acompanhou a carreira de Mojica no cinema e também na TV, sente falta de uma de suas melhores características: o senso de humor. Talvez por ter se cercado de gente devota demais, e que o leva muito a sério, essa qualidade, que tempera bem o horror, tenha ficado em segundo plano. O melhor terror é o terrir, como diz outro adepto do gênero, Ivan Cardoso.

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