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O Desinformante: verdades com valor de mentiras

Luiz Zanin Oricchio

16 de outubro de 2009 | 13h26

Como O Desinformante é o quarto filme de Steven Soderbergh a estrear este ano, quebra na praia uma onda de má vontade contra ele. Dois desses lançamentos são sobre Che Guevara, o que só piora seu caso, pelo lado político. Mas seria pena levar esse preconceito muito a sério, a ponto de não se perceber como é engraçada, e também inteligente, esta história do trapalhão da informação (e também da contrainformação) vivido por Matt Damon.

Ele faz Mark Whitacre, executivo de uma indústria de alimentos. Pela narrativa em off do personagem ficamos sabendo que a matéria-prima principal da sua indústria, o milho, está presente em muitos produtos, sob a forma de derivados. Um deles, a lisina, é particularmente valioso. Acontece que a indústria para a qual trabalha está sendo atacada por um vírus que reduz a produção. Alguém tem a fórmula para acabar com a doença e deseja vendê-la por alto preço. Tudo cheira a chantagem. E também a manipulação de preços, formação de cartéis e outras artimanhas do mercado, daí que o FBI acaba entrando na história e forçando o (em aparência) inocente Mark a colaborar.

O Desinformante é uma daquelas histórias em que cada verdade definitiva se transforma em verdade provisória até mostrar que pode não passar de mentira. Matt Damon leva ao limite seu ar de inocência de modo a parecer de fato surpreso a cada reviravolta da história. É um trunfo da interpretação, mas apoiada pelo roteiro agudo de Scott Z. Burns.

Soderbergh lê bem nesse script a vocação de farsa da história. Adota um tom, que oscila entre o sério, o irônico, e o realmente engraçado. O Desinformante é uma farsa sobre esse personagem um tanto macunaímico – aliás, inspirado em livro de Kurt Eichenwald (The Informant) – tão representativo da nossa melhor cultura corporativa. Por trás das trapalhadas de Mark espreitam, quietinhas, as políticas de manipulação e fixação de preços que oscilam segundo o fluxo das mercadorias e acordos entre corporações. Nada que lembre a famosa “mão invisível”, a autorregulação do mercado que seria um dos mitos contemporâneos. Misturando os ingredientes, Soderbergh faz de toda essa mitologia liberal uma divertida comédia de humor (às vezes negro).

Essa leitura “política” não deve levar ninguém a acreditar que se trata de uma obra complexa. Nada disso. Se a trama às vezes é enrolada, isso se deve apenas ao esforço para acompanhar o modo como negociatas internacionais são conduzidas. No fundo, Mark é uma pequena peça, um peão, nesse grande jogo da economia, apenas em aparência honesto. Mas se o enredo às vezes parece mais intrincado que um texto em aramaico, a maneira como o filme flui é das mais simples.

Aliás, talvez seja o seu grande trunfo. É como se Soderbergh, depois do exaustivo épico de Che Guevara, se manifestasse numa estética de repouso, que nada tem de complicada. A narrativa em off, verdade, não é explicativa, porque exprime o ponto de vista de um protagonista cada vez mais suspeito. Mas a pontuação da música, o encadeamento das sequências, enfim, o modo como tudo se encaixa torna O Desinformante fácil de se gostar. Ele não trabalha nunca contra o prazer do espectador.

E, ao se oferecer como objeto de diversão, e de maneira tão despojada e nada retórica, acaba por tocar em alguns dos grandes problemas desse mundo capitalista, que é o nosso. Filme esperto.

(Caderno 2, 16/10/09)

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