O Desfile de Páscoa
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O Desfile de Páscoa

Luiz Zanin Oricchio

10 de novembro de 2010 | 17h21

A primeira frase de seu O Desfile de Páscoa, de Richard Yates, ecoa o início de Anna Karenina: “Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz e, olhando em retrospecto, sempre pareceu que o problema começou com o divórcio de seus pais.” Mas, se no romance de Tolstoi o que se punha em contraste era o banal da felicidade (famílias felizes, todas iguais) e a idiossincrasia da infelicidade (cada família infeliz o é à sua maneira), em Desfile de Páscoa o que se propõe é uma certa arqueologia da infelicidade.

De fato, o início da história de Sarah e Emily será contada em relação às personalidades dos pais separados. O pai, Walter, é um jornalista que as meninas supõem ocupar alto cargo na hierarquia da empresa, e descobrem ser copidesque do Sun, de Nova York. A mãe, Pookie, vivia enroscada em negócios imobiliários confusos e mudava de casa a toda hora, levando com ela as meninas.

No entanto, ao longo da vida, Sarah e Emily, apesar da influência da mãe e do pai, se empenharão em ser infelizes por conta própria – e cada uma à sua maneira e com estilo próprio. Sarah, ao mergulhar num casamento prematuro e que dura a vida toda, ainda que sujeito aos trancos e desníveis do terreno. Emily, colocando-se numa zona de maior risco ao estudar, tornar-se jornalista e depois publicitária, casar-se, divorciar-se e tentar vários relacionamentos, até a maturidade.  Os dois caminhos tão diferentes cruzam-se e se completam de maneira muito simétrica.

Esse é um romance sobre a condição feminina ambientado numa época pré-liberação, nos anos 1950. Alguma coisa já fermentava ali e aqui, mas a ruptura do final dos anos 1960, com a pílula, o feminismo e o movimento hippie ainda não havia chegado. Às mulheres era dada a escolha entre um casamento convencional ainda que insatisfatório e a aventura no mercado de trabalho, com sua independência e o possível preço da solidão. E a frustração é sempre adormecida sob doses industriais de álcool, que funciona como amortecedor social mas cobra seu preço. De uma maneira ou de outra, todos os personagens são profissionais do copo.

Yates é autor também de Foi Apenas um Sonho (Rua da Revolução), história adaptada ao cinema por Sam Mendes, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet como o casal de alta aspiração na vida e destino medíocre. O Desfile de Páscoa mostra como se cobra preço exorbitante às mulheres, seja na submissão seja na busca de autonomia. Não é que para Yates (1926-1992) o “sonho americano” fosse um pesadelo. Era apenas uma expressão desprovida de sentido.

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