O cristianismo radical de Rossellini
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O cristianismo radical de Rossellini

Luiz Zanin Oricchio

04 de março de 2010 | 09h30

Ingrid Bergman em Europa 51

Ingrid Bergman em Europa 51

O lançamento de Europa 51 (Versátil, R$ 44,90) permite a reavaliação dessa que é uma das obras-primas de Roberto Rossellini. Sim, hoje se pode chamar o filme de obra-prima, mas enfrentou forte crítica quando lançado, em especial pela esquerda italiana que nele via uma espécie de traição ao neorrelismo. Cometida justamente por seu maior nome, seu arauto e patriarca. Nessa tendência de análise, a história de Irene (Ingrid Bergman) era tida como expressão mesma da despolitização e de um certo reacionarismo. À distância de quase 50 anos, fica fácil ver como essas conclusões eram injustas e precipitadas.

Nas primeiras sequências, Irene é mostrada como mulher da classe alta, leviana, sem tempo para nada. Nem mesmo para o filho. Durante uma festa, ela manda o menino para a cama, e não lhe dá maiores atenções. A criança cai da janela e é levada a um hospital. A queda terá sido involuntária, um acidente? Ou seria um suicídio? Esse fato traumático produz uma intensa transformação em Irene. Procura se aproximar dos pobres – e então entra em contato com uma Itália para ela desconhecida, a das periferias, da pobreza, da dificuldade extrema da reconstrução no pós-guerra. Quem a introduz a esse outro lado da vida é um primo, comunista. Mas logo Irene começa a ultrapassar mesmo a fronteira delimitada pela ação política do primo. Acompanha uma prostituta até a morte. Substitui uma operária (Giulietta Masina) em seu trabalho na fábrica por alguns dias. E, por fim, ajuda um pequeno delinquente a escapar da polícia – o que lhe trará sérias consequências. Mas que “consequências” são essas? A perda da respeitabilidade burguesa parece ser a maior delas. Mas o fato é que Irene, a partir de certo ponto de sua trajetória, já parece estar além das conveniências sociais.

A maneira como Rossellini dirige a atriz faz da personagem uma espécie de Joana d’Arc contemporânea, como já foi apontado. É um caminho de ascese, de santidade laica – este sendo um dos assuntos preferenciais de Rossellini e, a partir de sua obra, um dos temas que se impuseram na contemporaneidade. Porque não basta chamar Rossellini de “cineasta cristão”, mas é preciso ver a que tipo de cristianismo almejava.

Desse modo, a ação social de Irene irá incomodar não apenas a família e as autoridades, mas a própria Igreja, que se sentirá sob pressão, como se a prática de cristianismo primitivo (no bom sentido do termo), a desautorizasse. Desse modo, não restará ao corpo social (representado pelo marido, família, a polícia, a Igreja e a medicina) senão isolar esse perigo. É a função que assume determinada psiquiatria, como foi demonstrado por Michel Foucault, entre outros. A disciplina “científica” tem um papel de normalização e proteção ao status quo, tudo sob a fachada terapêutica. De certa forma, Rossellini tocava em questões latentes em seu tempo e antecipava um certo clima “antipsiquiátrico” que só ficaria claro nos anos 1960. Isso apenas para se deter nesse que é um dos aspectos deste filme extraordinário.
Seria interessante pensar que, no tocante à caridade, divergem dois mestres como Buñuel e Rossellini. Luis Buñuel tem o filme definitivo sobre a questão – Viridiana (1961). Aqui, outra mulher, Silvia Pinal, tenta levar ao paroxismo a caridade cristã para concluir por seus paradoxos e sua inutilidade numa corrosiva paródia da Santa Ceia protagonizada por mendigos bêbados. Em seu DNA ético, Buñuel era ateu e anarquista, ainda que de formação católica.

Em contrapartida, Rossellini vê na caridade e no despojamento de si um duro caminho da graça. A trajetória de Irene passa por exemplar, e é mesmo o caminho áspero de uma santa. Percurso clássico, da vida dissoluta à ascese, passando pelo inevitável despojamento dos bens materiais e das vaidades deste mundo de vaidades, nas palavras do texto sagrado.

Mas é também um percurso crítico e corrosivo, que aponta para o que, no futuro, seria o engajamento social da Igreja. No seu trajeto cristão, Rosselini põe a nu toda a rede de hipocrisias que permite o funcionamento de uma sociedade injusta. Longe de reacionário ou alienado, o filme é bastante questionador. Seu estilo é de despojamento total, em consonância com o caminho espiritual (e social) da personagem.

(Caderno 2, 4/3/2010)