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O crime do restaurante chinês

Luiz Zanin Oricchio

22 de abril de 2009 | 20h13

Numa manhã de março de 1938, o cozinheiro de um restaurante chinês do centro de São Paulo chegou para abrir as portas e preparar o almoço. O que encontrou deixou-o pasmo.Primeiro, os corpos de dois empregados,
massacrados na cozinha onde costumavam dormir. Em seguida, em outros aposentos, os cadáveres do patrão Ho-Fung e o de sua mulher Maria Akiau.

O velho caso da crônica policial é agora exumado pelo historiador Boris Fausto no livro O Crime do Restaurante Chinês (Cia. das Letras, 236 págs., R$ 45).

E por que essa atenção a um velho caso dos anos 30? Porque ele diz muito
sobre a sociedade da época. Traça um retrato bastante agudo de uma cidade já bastante grande, desvenda alguma coisa das relações de classe e da maneira como eram vistos os imigrantes e os negros.De quebra, pode dizer algo sobre o funcionamento da Justiça, e os pressupostos teóricos dos magistrados.

Enfim, O Crime do Restaurante Chinês conforma-se aos objetivos da chamada micro-história, de estudiosos como o italiano Carlo Ginzburg e o francês
LeRoy Ladurie. Ela reduz a escala de observação do historiador,
concentrando-a em pessoas comuns. Extrai de fatos corriqueiros uma dimensão sociocultural relevante e adota o recurso da narrativa, ao contrário da história das grandes estruturas.Pelo micro, chega ao macro.

No caso, Boris Fausto acompanha de perto a figura do principal suspeito,
Arias de Oliveira, antigo empregado do restaurante que teria lá voltado para roubar. Para tanto, teria lançado mão de um instrumento contundente, um pilão, e massacrado as duas primeiras vítimas durante o sono. Os patrões acordaram e tiveram a mesma sorte dos funcionários. Arias era um jovem forte de 22 anos, viera de Franca e encontrava-se em situação econômica precária. Tudo o incriminava, inclusive o fato de ser negro em uma sociedade que, na época, não se importava muito em disfarçar o racismo. Foi preso, interrogado e confessou o crime.

Boa parte do livro é dedicada ao julgamento. Aliás, aos julgamentos, pois ele foi levado ao tribunal por duas vezes.Como os fatos aparentemente o incriminavam, e tendo confessado, não parecia haver outro desfecho senão a condenação. No entanto, o advogado, dr. Paulo Lauro, conseguiu insuflar no júri certa desconfiança em relação às provas e, sobretudo, aos métodos usados para obter a confissão de Arias. No fim, ele foi absolvido por quatro votos contra três. A acusação apelou e Arias foi levado a júri pela segunda vez e absolvido, por 4 a 3, de novo.

Uma segunda espiral entrara em jogo e parecia favorável o acusado. Depois de ser tratado de monstro pela imprensa sensacionalista e como ameaça à sociedade, Arias passou, aos poucos, a ser visto com certa benevolência. De vilão a vítima, numa oscilação de sentimentos tão típica de um país “cordial”. Há um detalhe (mas os detalhes são tudo): naquele ano, o Brasil jogara a Copa do Mundo na França e Leônidas da Silva tornara-se ídolo nacional. Acontece que Arias era muito, mas muito parecido com Leônidas…

Ao fim da narrativa, Fausto se pergunta o que teria acontecido se as vítimas fossem paulistanos quatrocentões em vez de imigrantes anônimos ou
brasileiros pobres. Outro lado: se o réu não fosse negro teria ficado preso quatro anos sem culpa formada? Perguntas impossíveis de responder. No entanto, o autor se reserva o direito de espantar-se de que, num caso duvidoso, júris constituídos por gente da elite paulistana tenham se decidido pelo princípio jurídico do “in dubio pro reo” em favor de Arias.

Tudo é muito revelador. Incluindo as contradições e o inesperado. Não cabe à história, micro ou macro, reforçar clichês, mas, pelo contrário, colocá-los em crise.

(Caderno 2, 18/4/09)