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O Crepúsculo do Oeste

Luiz Zanin Oricchio

01 Fevereiro 2008 | 13h26

São três os personagens principais de Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen: um homem perseguido de maneira implacável e decidido a vender caro a sua pele; outro, que o persegue com a inevitabilidade de um flagelo do Velho Testamento; por fim, um xerife, que observa o caso, medita sobre ele e tenta intervir, na medida de suas limitadas forças.

Digamos de entrada: essa adaptação do romance de Cormac McCarthy (No Country for Old Men; no Brasil Onde os Velhos Não Têm Vez) é nada menos que brilhante. Retoma os Coen dos grandes momentos, de Fargo e de O Homem Que Não Estava Lá. O filme começa com cenas de uma paisagem árida, áspera, selvagem, deserto e estradas sem-fim, enquanto uma narrativa em off introduz o tom e a visão de mundo de um dos personagens. Saberemos depois que se trata do xerife Ed Tom Bell, em magnífica caracterização de Tommy Lee Jones. Bell, com voz melancólica, conta que uma vez enviou um garoto à cadeira elétrica. A defesa tentou alegar privação momentânea de sentidos, mas o acusado, de 19 anos, disse que não havia qualquer paixão no ato. Sempre quisera matar alguém e tornaria a fazê-lo caso fosse solto. Era o Mal, que se anunciava.

Pois esse é o tom de um filme de ressonâncias bíblicas. Bell será o tempo todo a consciência antiga, de uma época cujos valores talvez já não possam ser recuperados e nem tenham razão de ser no mundo moderno. Não por acaso a história se situa no Texas, no Oeste, depositário da mitologia norte-americana sobre a sua fundação como país. Mas pode ser que esse conjunto de idéias e valores tenha se tornado peça de museu, como Monument Valley, onde John Ford filmou seus épicos e virou atração turística. Algo ocorreu, que colocou tudo fora dos trilhos. Agora é um outro tempo, ‘time out of joint’, fora de esquadro, como escreveu Shakespeare em sua época.

Factualmente, sugere-se o que foi que botou tudo de cabeça para baixo: a generalização do tráfico e uso de drogas, a passagem em doses industriais de heroína pela fronteira mexicana, as grandes somas envolvidas, o poder de corrupção do dinheiro fácil. Enfim, as portas abertas do mundo contemporâneo, que são as portas do inferno e nada mais – porque é disso que se trata no filme e não de outra coisa.

Um acerto malsucedido entre traficantes está no início do enredo. Não sabemos o que houve, mas tudo indica que alguma coisa não deu certo para que uma montanha de cadáveres baleados apareça apodrecendo no deserto diante de um caçador solitário. Há uma soma enorme de dinheiro dando sopa e alguém se apodera dele – o opaco soldador, e caçador de cervos nas horas vagas, Llwelyn Moss (Joss Brolin), que vê aí a oportunidade de arrumar a vida. A dele e a da jovem esposa, Carla Jean (Kelly MacDonald).

Mas toda fortuna tem dono e, algumas delas, mais de um proprietário. Em geral, esses donos não são amistosos. Logo, Llwelyn terá em seu encalço a pior das pragas – uma fera dotada de escrúpulos e rígido senso moral sobre sua profissão. Essa encarnação do apocalipse está a cargo do espanhol Javier Bardem, na pele do matador Anton Chigurh.

São esses então os três pólos de movimentação do filme: Llwelyn, perseguido por Chigurh, com o xerife Bell tentando fazer com que as coisas voltem ao normal. Ou seja, tentando fazer que um dinheiro de crime seja apreendido; um marido não particularmente desonesto, apenas aproveitador, volte são e salvo para sua esposa, e um matador implacável seja posto fora de combate.

Há um curioso senso moral e suas implicações que atravessa toda a história. Llwelyn, que poderia ter se apossado da fortuna sem qualquer problema, volta ao lugar do crime por uma questão moral. Chigurh é movido por uma impecável moral da profissão, uma deontologia da morte que o leva a exceder em seus deveres. Bell é representante de uma moral de outros tempos, em que a autoridade da lei era tanta que um xerife nem precisava andar armado, como ele recorda.

Bell sabe que os tempos são outros. Daí a desolação da face devastada de Tommy Lee Jones, ator que vem se especializando em dar face ao fim do sonho americano (basta lembrar de Três Enterros de Melquíades Estrada, O Vale das Sombras etc. ). Nesse novo tempo (a história ambienta-se em 1980), talvez seja inútil valer-se dos velhos métodos. Mas ninguém se torna ‘moderno’ quando quer e talvez Bell esteja irremediavelmente ultrapassado, incapaz de enfrentar um novo mundo, a nova ‘ética’, as novas relações entre pessoas. Não deixa de ter graça a conversa dele com outro policial veterano que se diz espantado com o que vê e nunca poderia imaginar, no Texas, jovens de cabelos verdes e pregos (sic) enfiados no rosto. Mas o que choca o xerife Bell é algo muito mais importante do que piercings e cabelos de cores exóticas. É um certo vazio de sentido, que ele pressente e tenta preencher de algum modo.

Esse vazio está inscrito na maneira mesma de apresentar o material fílmico. Nos planos longos das grandes extensões do Texas. Nas falas lacônicas. Na ausência aparente de uma maior emoção dos personagens. Todos agem como se movidos por uma força maior, impossível de ser detida, o que é a marca do destino, e portanto da tragédia. Se às vezes a morte ou a vida são decididas na base do cara ou coroa, é a inevitabilidade do fim que marca a trajetória dessa saga de um Oeste que manteve características formais da época dos pioneiros (botas, chapelões, espírito rústico) mas que perdeu sua alma. O filme fala, talvez, da grande nação americana como um todo e não de um Estado particular da federação.

O curioso é a dinâmica que esse thriller metafísico e trágico assume nas mãos de diretores como os Coen. O tecido narrativo é depurado ao extremo. Apresenta-se seco como três desertos, como dizia Nelson Rodrigues. Não há uma nota de música, a não ser nos créditos finais e, em outra ocasião, quando um estropiado Llwelyn ouve um grupo de mariachis entoar a canção dolente que fala… justamente de erros, arrependimentos e morte. Uma espécie de coro grego, intervindo num ponto particularmente importante da tragédia.

Ao mesmo tempo, essa secura narrativa é irrigada pela presença de elementos humorísticos ou paródicos sempre presentes nos filmes da dupla. Como entender de outra forma a bizarrice do corte de cabelo à la Beatles (da fase romântica) de um personagem tão soturno como Chigurh? Ou a figura da mãe de Carla Jean, proclamando a todos que tem câncer, como se isso fosse uma distinção? Sim, há humor e, com freqüência, trata-se de humor negro. Ele nos distancia um pouco e nos alivia, trabalhando no interesse da dinâmica do filme. Porque há esse detalhe importante – e ele não deve ser omitido: um filme dos Coen, mesmo quando trágico, é um verdadeiro prazer para o espectador. Para seus olhos, ouvidos e inteligência.

Talvez frustre aqueles que esperam finais fechados, roteiros com todas as pontas amarradas e diálogos explicativos. Não. Essa tragédia moral chamada Onde os Fracos Não Têm Vez mantém-se aberta até o final. Nos acompanha após a sessão e permanece conosco. Produzindo ainda efeitos, pedindo compreensão e apaziguamento. Mesmo que saibamos, como o xerife Bell, que os filmes e os sonhos apenas sugerem e são pontos de luz, nunca lições terminadas e definitivas.