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O Corvo

Luiz Zanin Oricchio

21 de maio de 2012 | 08h46

Eis aqui uma boa ideia inicial, fantasiada a partir de um fato verídico. Ao regressar a Baltimore, em 1849, o escritor Edgard Allan Poe foi encontrado num banco de praça, em estado de choque. Alcoólatra, aparentemente teria entrado numa taberna e bebido até a inconsciência. Foi atacado de delírium tremens e morreu dias depois. Nunca se soube direito o que teria acontecido. O Corvo, de James McTeigue, especula sobre o que teria havido nesses dias.

Arma uma trama fantasiosa, na qual o próprio Poe se defronta com um serial killer que age inspirado nos contos do escritor. Poe é interpretado por um John Cusak que poderia estar mais contido, não fosse o exagero a nota predominante do projeto do filme de McTeigue. Como o modus operandi do assassino lembram as tramas que escreveu, Poe é recrutado para ajudar na investigação, junto com o detetive Fields (Luke Evans). A coisa toma rumo ainda mais dramático quando a amada de Poe, Emily Hamilton (Alice Eve) é sequestrada pelo assassino. Este deixa pistas baseadas nas narrativas de terror escritas por Poe. Mas o tempo é curto para encontrar a moça com vida. Os crimes citam ou fazem paráfrase de contos famosos, como A Morte e o Pêndulo, O Barril de Amontillado, A Máscara da Morte Vermelha, O Mistério de Marie Rouget, O Enterrado Vivo e, referência mais sutil que as outras, A Carta Roubada ­– que fornece a chave do mistério.

Se a ideia é boa, a realização deixa a desejar. O universo de Poe é gótico. McTeigue opta pelo grotesco, não raro. Ao invés de explorar o terror implícito, mais eficiente, vai logo para o explícito, para chocar. Os golpes baixos, além de desagradáveis para o público, deixam de funcionar  a partir de certo ponto. Vamos nos habituando a eles e não nos produzem mais arrepios. Apenas tédio.

Por outro lado, o ponto de partida é interessante, mas mal trabalhado. A ideia de confrontar Poe com sua própria ficção é engenhosa. Menos feliz, no entanto, é a maneira como as narrativas se transformam em pistas para a investigação. Faltou ourivesaria de roteiro. Tudo soa muito artificial, como se a história tivesse sido construída do fim para o começo para que todas as peças se encaixassem – o que provavelmente aconteceu.

Além disso, a peça maior da simbologia de Poe – o corvo – que dá título ao filme não passa de uma presença ornamental, se o termo cabe nesse caso. O Corvo é um poema, um dos mais conhecidos e traduzidos de todos os tempos. O próprio Poe deixou um ensaio, A Filosofia da Composição, no qual explica como o escreveu. É um texto sobre a morte e sobre o “nunca mais” (nevermore) da ausência absoluta do ser amado. No filme, ele é apenas uma presença física, a de uma ave de mau agouro, que alinhava episódios diferentes. Tem presença física, mas não presença metafísica.

(Caderno 2)

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