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O Contador de Histórias

Luiz Zanin Oricchio

07 de agosto de 2009 | 18h57

Não há dúvida que O Contador de Histórias é aquele tipo de filme que flerta, e às vezes namora, com a pieguice. Até mesmo pelo que conta, um caso raro e quase mágico de superação pessoal, a sua tendência é ir por esse caminho. Mesmo a contida e intelectual atriz portuguesa Maria de Medeiros, que interpreta a pedagoga francesa Margherit, salvadora do menino de rua, parece frequentar um tom de atuação bem acima daquele a que está habituada.

Tudo nessa história contamina o projeto, e acaba por contaminar também aos espectadores. Afinal, o que ela se propõe a mostrar nos toca demais e fala da possibilidade individual de escapar a um destino social quase inexorável. Fala também da solidariedade extrema e de seus efeitos benéficos. Fala, em suma, de um mundo que não é o nosso. Ou, pelo menos, de uma exceção ao nosso mundo tão cru e determinista. Por isso encanta. E também nos deixa com o pé atrás. O fato de basear-se numa “história real”, como a de Roberto Carlos Ramos, não nos torna menos desconfiados, como se quisessem nos impingir uma fantasia.

E, de fato, o filme mais convence quando abandona o registro realista e passa a explorar, na tela, em imagens, o mundo imaginário do personagem. Por exemplo, quando ele vê um menino de rua valentão paramentado com os hábitos de um rei. É como ele o imagina. Tudo pode ser como ele o imagina, e o fabulador profissional pode também ter fantasiado muito da sua história pessoal. Entre o imaginário e o real, a dosagem excessiva de glicose poderia se diluir. No entanto, essa é uma luta intensa, que se trava no interior de um filme que não deixa de exibir essa tensão, para seu prejuízo.

(Caderno 2, 7/8/09)

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