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O Conformista

Luiz Zanin Oricchio

20 Outubro 2008 | 00h30

Todos querem se destacar, ser diferentes dos outros; você é o contrário: quer ser como todo mundo. Esse é um dos diálogos-chave de O Conformista, filme que Bernardo Bertolucci adaptou do romance homônimo de Alberto Moravia. Ela é dita por um amigo ao personagem principal, Marcello Clerici (Jean Louis Trintignant). O amigo ficara surpreso ao receber a resposta de Clerici sobre o motivo do seu casamento com uma moça bastante banal (a não ser do ponto de vista físico), Giulia (Stefania Sandrelli): “Ela me dá uma idéia de normalidade”, diz Clerici, “de ser como todos os outros.”

Esse é um dado, digamos, pessoal, desse personagem, um dos mais instigantes da obra de Moravia. Mas, nesse caso, o pessoal reveste-se do político. E este se explicita no momento histórico, quando sabemos que o casamento de Marcello e Giulia se dá na Itália de Mussolini. Clerici quer se casar, e aspira também a tornar-se membro do Partido Fascista – o que era a maneira mais óbvia de “ser como todo mundo” naquela época. E, para fazer-se confiável aos olhos do partido, ele tomará parte de um plano sinistro – ir a Paris, encontrar e, talvez, eliminar um dissidente que, não por acaso, havia sido seu professor na faculdade.

Esse entrecho é magnificamente trabalhado por Bertolucci naquele que talvez seja seu trabalho mais bem realizado (ao lado de A Estratégia da Aranha). Fotografado por Vittorio Storaro, o filme é uma sucessão contínua de sugestões de estados psicológicos, mesclados à reflexão política. O ambiente é invernal e boa parte da história é filmada em Paris, e depois no interior da França, para onde o casal Clerici segue em suposta lua-de-mel. Em companhia de ambos, o capanga Manganiello (Gastone Moschin). Eles irão se encontrar com o antigo professor de Marcello, Quadri (Enzo Tarascio), e sua mulher, Anna (Dominique Sanda).

O filme é de uma beleza extrema, pungente sem nunca deixar de ser reflexivo, ou seja, nunca permite que a “estética” seja cultivada por si só, de maneira autônoma. Cada enquadramento vem a serviço de uma idéia. A estrutura temporal é complexa. Vemos cenas dos primeiros contatos de Clerici com os fascistas, o seu relacionamento com a noiva, etc., intercaladas com outras já o mostrando a caminho de se tornar um criminoso político. Ou um criminoso, tout court.

Se a beleza nunca é vazia, isso se dá porque é veículo de uma preocupação pungente, que Moravia transmite a Bertolucci e pode ser resumida a uma pergunta: como pode o homem comum italiano transformar-se em celerado sob determinadas condições históricas, como sob o domínio de Mussolini? Esta é a pergunta pela natureza e pela condição de possibilidade do fascismo, questão que atravessa a história italiana ao longo do século 20 e, como todos sabem, ressurge viva e premente no século 21.

Nesse sentido, talvez não seja inútil relembrar uma pequena história. Em 1994, Bernardo Bertolucci, já então o diretor mundialmente famoso como vencedor do Oscar com O Último Imperador, esteve no Festival de Brasília para participar de uma homenagem ao cineasta italiano Gianni Amico (1933-1990) que, fiel ao sobrenome, de fato havia sido grande amigo do cinema brasileiro. Na ocasião, Silvio Berlusconi havia sido eleito para o primeiro dos seus mandatos como presidente do Conselho italiano, que equivale ao cargo de primeiro-ministro. Este crítico perguntou a Bertolucci porque ele passara a filmar fora da Itália, e recebeu a seguinte resposta: “Vou voltar a filmar em meu país, e voltar a fazer cinema político agora que a Itália está de novo ameaçada pelo fascismo.”

Era preocupação digna de quem percebia que o problema da Itália não era tanto a existência de determinados personagens políticos, mas o fascínio que eles exercem sobre grande parte da população italiana. Eis aí uma questão interessante. A grande maioria dos estudos sobre o fascismo concentra-se na personalidade do líder. Poucos deslocam a atenção para o fascínio das massas, sem o qual o candidato a líder seria inócuo. Um dos poucos estudos sob esse ângulo é Psicologia de Massas do Fascismo, de Wilhelm Reich, que assimila a atração pelo “caráter” fascista à repressão sexual.

Existe algo disso em O Conformista e, por esse motivo, Bertolucci, sempre seguindo de perto Moravia, introduzirá a questão da repressão homossexual como um dos componentes da personalidade maleável de Marcello Clerici, que teria experimentado uma atração juvenil pelo chofer da família. Existem também alusões às armas – e, em especial, a uma pistola – como símbolos fálicos. Enfim, o filme responde bem às exigências intelectuais de Bertolucci, sempre pronto a tentar fusões entre o social e o psicológico, ou, de modo mais específico, ao psicanalítico – como se vê de maneira mais clara ainda em La Luna, por exemplo.

No entanto, embora contenha esses elementos e permita essa leitura, o enfoque de O Conformista parece mais social do que outra coisa qualquer. Clerici é descrito, analisado e dissecado como o protótipo do “homem comum”, no espírito do “qualunquismo” italiano, isto é, desconfiado dos outros e da política, isolado e facilmente manipulável. Um conformado, em suma. E como esse conformista, homem do medo e da obediência, que deseja desaparecer no anonimato, se presta a qualquer ato, mesmo um crime ignóbil em nome de um regime que, no fundo, nada significa para ele?

Esse é o enigma maior do personagem. Porque Clerici não é um verdadeiro fascista. Ele será fascista enquanto o fascismo estiver no poder. Quando cair, será antifascista e, depois, indiferente. Poderá aderir ao novo governo, e sem qualquer convicção, já que não as tem. O que O Conformista (Lume Filmes, R$ 44,90) sugere é que o problema não é o líder fascista, nem os verdadeiros fascistas que a ele aderem, mas os que o fazem por medo, indiferença, fraqueza ou simplesmente porque são parte da massa amorfa, bovina, que se move para onde vai o rebanho. Inútil dizer que se trata de uma reflexão política mais atual do que nunca.
(Cultura, 19/10/08)