O Ciúme
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O Ciúme

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2014 | 11h43

ciume

O imbróglio amoroso imaginado por Philippe Garrel lembra aqueles versos de Carlos Drummond de Andrade em Quadrilha. Algo como “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. Em O Ciúme, é Louis (Louis Garrel, filho do diretor) que deixa Clotilde (Rebecca Convenant), a mulher com quem ele havia tido um filho por outra, Claudia. Louis é amado por Claudia (Anna Mouglalis), mas esta tem medo de que ele também o acabe deixando. Um dia, ela conhece um arquiteto e agora é Louis quem teme ser abandonado.

Ou seja, uma ciranda amorosa, só que filmada com todo o rigor de quem se reivindica autêntico herdeiro da Nouvelle Vague. Garrel é autor atento às relações humanas, interessado no relacionamento complexo de casais, mas não barateia jamais o sentimento humano, como costuma fazer o cinema, digamos, mais comercial. Dá a esses sentimentos a espessura da contradição. Eles são sempre complexos, não-lineares e difíceis de serem entendidos pela lógica cartesiana. Todo mundo que já teve uma experiência amorosa radical sabe como é. Mas aqueles que fizeram do cinema comercial (em especial norte-americano) sua única fonte de educação sentimental, têm a ilusão de que essas coisas são simples. Não são. Garrel sabe disso.

Para completar suas fontes de referência, Garrel filma em preto e branco e usa de planos longos e contínuos. Trabalha com o próprio filho, no limite da angústia de um personagem que sabe estar sendo vítima de sentimentos irracionais e, mesmo assim, nada consegue fazer para evitá-los. Há uma ancestral tragédia do ciúme e esta já foi tratada de diversas maneiras e por autores de todas as épocas. O clássico é Othelo, o ciumento de Shakespeare, que sempre encontra confirmação para suas suspeitas, mesmo porque as busca minuciosamente. Louis é um discípulo assumido dessas corrente.

O filme concorreu em 2013 no Festival de Veneza e o tema dos relacionamentos foi longamente debatido por Garrel pai e Garrel filho na entrevista aos jornalistas. Ambos concluíram que não existe propriamente maldade nas atitudes dos personagens. Acontece que eles e elas, como tantos outros, simplesmente não podem deixar de fazer o mal justamente quando pensam estar procurando o bem para todos. É um dos paradoxos da vida amorosa. Não o único.

De qualquer forma, sobra ao filme acuidade na percepção da psicologia dos personagens. Não tenta explicá-la de maneira definitiva, mesmo porque os relacionamentos são suficientemente complexos para deixar boa parte de sua natureza na sombra. A natureza dessa “investigação” (vamos chamá-la assim) lembra muito a que faziam em seus filmes diretores como François Truffaut (A Mulher do Lado) e Jean Eustache (La Maman et la Putain). É cinema para adultos.

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