O cinema do Murilo Salles
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O cinema do Murilo Salles

O cineasta Murilo Salles lança três filmes simultaneamente, ótima ocasião para reavaliar a obra desse artista de sólida carreira

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2015 | 19h56

O diretor Murilo Salles foi notícia esta semana. Estreou nada menos que três filmes ao mesmo tempo! Murilo tem uma carreira das mais sólidas do cinema brasileiro. O texto abaixo foi escrito para esta ocasião. Na versão impressa do jornal saiu muito cortado, pelas clássicas razões de espaço. Aqui está mais inteiro. 

murilo

Depois de um início muito longo, e muito bem-sucedido, como diretor de fotografia, Murilo Salles estreia no longa de ficção com Nunca Fomos Tão Felizes (1984). Um estouro, mostrando os efeitos da ditadura militar sobre a estrutura da família.

Neste, que muitos consideram seu melhor filme, Murilo mostra-se particularmente feliz ao colocar o drama pessoal contra o contexto histórico, mostrando que tudo é uno, mas os enfoques são diferentes, dependentes da abordagem que se faça e do ponto de vista de quem rege a orquestra – o diretor da obra. O difícil relacionamento do filho adolescente (Roberto Bataglin Jr.) e o pai militante (Claudio Marzo) estabeleciam essa ponte do pessoal com o histórico e estabeleciam, na véspera da redemocratização o custo social da ditadura (que continua a cobrar juros ainda hoje, ainda que haja quem peça sua volta).

Com Como Nascem os Anjos (1996), Murilo entra fundo na discussão do abismo de classes e da violência que encontra solo fértil nesse terreno de desigualdade. Há um dado adicional, que percebe antes de outros cineastas – o componente de exibicionismo que turbina ainda mais a violência na sociedade do espetáculo. O show do garoto sequestrador (Silvio Guindane) para as câmeras de TV é uma das cenas de maior impacto do cinema brasileiro da Retomada.

Esse entrecho de equívocos da vida nacional é novamente abordado, numa chave mais cômica, em Seja o que Deus Quiser (2002), encontro enviesado de moradores do morro, jornalistas de TV e um representante do mundo clubber. Reforça-se aqui o interesse do diretor pelos desacertos ancestrais e sempre criativamente reforçados da sociedade brasileira, e seus efeitos sobre os jovens. Como se estes herdassem os erros das gerações anteriores e prepararem seus próprios erros, a serem legados às seguintes.

Seria quase natural que esse mundo deformado, à brasileira, migrasse para o universo virtual, quando este se impôs como forma de representação dominante. Daí nasce Nome Próprio, inspirado livremente em livros da escritora e blogueira Clarah Averbuck. Já se observou que filme e personagem (Camila, interpretado por Leandra Leal) são irritantes. De fato, é o retrato, não de geração, mas de um mundo em oscilação permanente entre o real e o virtual, entre corpos e almas despedaçados neste paradoxo que é viver entre multidões (virtuais) que abolem a privacidade e experimentar a mais absoluta solidão.

Goste-se ou não desses filmes, há que reconhecer sua imersão radical no contemporâneo. Se às vezes dão tilt na dramaturgia, reiteram um cineasta para quem a forma não se distingue do conteúdo. A linguagem das obras não é indiferente ao que elas dizem. E, desta maneira, chegamos a Os Meios e os Fins, que mergulha no tema dos temas do Brasil contemporâneo – a corrupção. E o faz num registro sombrio em que mesmo as cenas solares parecem obscurecidas, como se o País se tivesse tornado refratário à luz solar. O casal formado por Cintia Rosa e Pedro Brício, ela jornalista, ele publicitário, migra para Brasília, coabita com e é sugado pelo mundo político. Por quê? Porque nele vê a possibilidade de acesso a dinheiro, ascensão social e poder que empregos comuns não trazem.

Esse filme incômodo, se um mérito tem, é sugerir que a corrupção, para se ter estabelecido desse jeito, é um “bem” comum, uma moeda de troca que perpassa toda a sociedade. Num momento em que as sutilezas estão abolidas e o maniqueísmo se institucionaliza, talvez Os Fins e os Meios traga elementos interessantes para debate. Se é que existe clima para debate.

Tudo o que sabemos sobre:

cinema brasileiroMurilo Salles

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: