O cinema brasileiro e a tragédia política do País
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O cinema brasileiro e a tragédia política do País

Três filmes em cartaz falam sobre o Brasil e suas desgraças políticas, 'O Paciente', 'O Banquete' e 'Camocim'

Luiz Zanin Oricchio

13 Setembro 2018 | 18h59

O que Camocim, O Paciente – o caso Tancredo Neves e O Banquete têm em comum, além do fato de serem produções nacionais e terem estreado esta quinta-feira? Os três falam da sempre turbulenta política brasileira, em três épocas distintas.

O Paciente conta a agonia do primeiro civil eleito depois de 21 anos de governo militar, e que, após longa agonia em hospitais, não chegou a tomar posse. Morreu num simbólico 21 de abril, data nacional da morte de Tiradentes, nosso herói. Mineiro, aliás.

O Banquete mostra bastidores do jornalismo nacional durante a fase do impeachment de Collor de Mello.

Camocim chega aos nossos dias e, através de uma pequena cidade no interior de Pernambuco, expõe a polarização política que nos atinge e, das metrópoles aos lugarejos, respinga em todos os cantos da Nação.

Em O Paciente, Sérgio Rezende circunscreve a trajetória de Tancredo Neves aos dias que precederam a sua posse após a vitória no Colégio Eleitoral. A Campanha das Diretas havia sido derrotada e a Emenda Dante de Oliveira não passara pelo Congresso. Mas o clima para a transição fora criado e a velha raposa mineira parecia a ponte confiável para a passagem do já muito desgastado regime militar para a democracia.

Eleito, Tancredo, esperto como sempre, viajara ao exterior para anunciar ao mundo o fato consumado de sua eleição. Na volta, preparava-se para a posse, quando passou mal e teve de ser operado. Resistiu aos médicos o quanto pôde, pois acreditava na possibilidade de um recuo institucional – nunca descartável num certo país chamado Brasil. Acabou morrendo por uma série de fatores – teimosia, excesso de zelo, mau atendimento médico, fatalidade. Morreu, assumiu o vice, Sarney que fora da Arena, o partido apoiador da ditadura.

Com O Banquete, damos um salto para momento seguinte. Após o desastroso governo Sarney, convocam-se por fim as primeiras eleições diretas para presidente no país, desde o golpe de 1964. Em ambiente já polarizado, Collor vence Lula em 1989. Assume dissolvendo instituições (acabou com o cinema brasileiro) e confiscando a poupança dos brasileiros que haviam votado nele. Seu envolvimento com práticas de corrupção fazem com que seja aberto um processo de impeachment. Renuncia ao cargo antes de ser afastado. Assume o vice, Itamar Franco.

O Banquete era uma antiga ideia da diretora Daniela Thomas. Baseia-se, claro, no famoso texto de Platão, mas o que se busca aqui não é tanto a sabedoria quanto os bastidores de uma certa intelligentsia nativa, bastante encontradiça no meio jornalístico. Jogos de poder, seduções, um ceticismo exibido à guisa de inteligência, essa atitude meio liberal meio esquerda light predominam na cena montada por Daniela em torno da festa para comemorar os 10 anos de casamento de um casal da turma. São todos do mesmo jornal, ou adjacentes, e um dos convidados, Mauro, é a imagem do publisher da Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho, falecido mês passado.

O pano de fundo liga-se a um fato real. No ocaso do governo Collor, Frias publicou em seu jornal uma carta aberta ao presidente. Com base na Lei de Imprensa, instrumento da ditadura que havia sobrevivido como entulho autoritário, foi ameaçado de prisão. Este é o ambiente na festa, quando a frivolidade blasé contrasta com o medo real de ir em cana. Uma das convivas levanta o brinde: “Vamos beber enquanto o navio afunda”. É assim, o transatlântico Brasil quase sempre está adernando ou a ponto de ir a pique. A elite bebe e prepara-se para um naufrágio elegante. Sabe que para eles, sempre haverá botes salva-vidas. Os pobres tentam apenas sobreviver.

Após a queda de Collor, o vice Itamar Franco assume e conduz a transição que leva a um raro período de progresso e estabilidade (com alguns trancos, claro) dos dois governos FHC e dois de Lula. Popularíssimo, Lula faz a sucessora, Dilma Rousseff. Que também navega com vento a favor em seu primeiro período. Mas disputa uma reeleição acirradíssima. Ganha por pouco de Aécio Neves que, derrotado, contesta a eleição. “Para encher o saco deles”, conforme gravação encontrada e vazada tempos depois.

Aceito o processo de impeachment de Dilma, abriu-se também a Caixa de Pandora das mazelas nacionais. O Brasil virou uma bagunça institucional talvez sem precedentes e a população dividiu-se de vez. As eleições marcadas para outubro tornaram-se as mais incertas da História recente com a prisão do favorito Lula e o atentado contra o representante da extrema-direita, Jair Bolsonaro. Nem García Márquez imaginaria uma situação como esta.

Em Camocim, Quentin Delaroche tenta meditar sobre esta polarização. O palco é a pequena cidade do interior pernambucano que dá título ao documentário. Em Camocim, as pessoas dividem-se entre Azuis e Vermelhos. De forma inconciliável. Um rapaz conta que a própria avó não fala com ele porque são de facções diferentes. Nem a família brasileira consegue permanecer unida com tanto ódio e rivalidade na atmosfera.

Os três filmes são interessantes. Falam de três momentos ou atos da permanente tragédia brasileira.

O Paciente, sobre a morte inesperada de alguém que representava o equilíbrio e a passagem para um mundo novo. O luto por Tancredo é por ele mesmo e também por um país que poderia ser e não foi.  

Pelas frestas de O Banquete, sente-se o clima de anomia e descrédito diante do País, sentimento que vinte e tantos anos depois viria a se instalar de forma consolidada entre nós. 

Camocim, através do microcosmo, expõe as mazelas atuais, a polarização, o descrédito da política, a corrupção, mas abre uma fresta de luz ao contemplar o idealismo da juventude através da incrível figura de Mayara, a garota que faz a campanha de um amigo, perde, mas não desiste de sonhar com um mundo melhor.

Com todos os seus problemas, o cinema nacional pensa sobre o País. Sofre com o Brasil.

 

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