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Aruanda 2014. O charme nada discreto de Cassia Eller

Luiz Zanin Oricchio

15 Dezembro 2014 | 12h44

JOÃO PESSOA

Foi um sucesso a apresentação de Cássia, de Paulo Fontenelle, concorrente do 9º Fest Aruanda. O público, que lotava a sala, riu e se emocionou com a trajetória da cantora que morreu jovem, no auge do sucesso, aos 39 anos, em 2001.

Fontenelle opta por uma narrativa em extensão, contando a vida, os amores, os êxitos e tropeços de Cássia Eller ao longo de 120 minutos de um filme intenso, talvez um tanto convencional na forma, mas que se coloca à altura emocional da sua biografada. Adota o formato clássico, intercalando cenas com a própria cantora (falando sobre si e seu trabalho, ou no palco, exercendo sua profissão), a entrevistas com aqueles que lhe foram próximos. Músicos que tocaram com ela, a companheira de muitos anos, Eugênia, o tio que a lança na vida artística, etc.

O que há de trepidante no filme é o registro da existência inquieta de Cássia, o tom agressivo da personagem que constroi para o palco, em contraposição ao lado doce, e até tímido, da sua vida fora dele. O fato é que, com sua arte e atitudes sexualmente afirmativas, Cássia arregimentou uma legião de fãs Brasil afora. Sua morte causou comoção nacional. Por vários motivos. Por ser um ídolo da música popular, uma das atividades de maior repercussão no imaginário nacional, ao lado da de jogador de futebol. Mas também por ser jovem e ter morrido de maneira inesperada e trágica.

Há todo um capítulo sobre a repercussão de sua morte, a princípio tratada pela imprensa sensacionalista como mais um caso de “ídolo que sucumbe à overdose”. Com o laudo da autópsia, ficou-se sabendo que Cássia morreu de um prosaico enfarte. Mas o caso é exemplar da maneira como são tratadas as mortes de celebridades no Brasil – e não apenas aqui, para sermos justos: com um misto de admiração e censura escandalizado, busca-se o que existe de excêntrico nessas vidas e procura-se sugerir que os excessos levam à desgraça, como, aliás, qualquer afastamento em relação à famosa “moral média” da população.

Se o filme tem uma virtude clara é a de mostrar sem qualquer disfarce o que foi a vida de Cássia Eller. Seu talento magnético no palco, uma maneira de cantar que entrava em sintonia com a necessidade jovem de rebeldia, tendo como pano de fundo uma vida pessoal bastante movimentada. Droga, sexo e rock’in’roll, sim, mas também uma afetividade que ficava entre a necessidade de estabilidade e as exigências da emoção. O relacionamento contínuo com Eugênia, mas também com a percussionista Lan Lan e, em seguida, com uma terceira personagem, não nomeada. Quando alguém lhe pergunta se buscava encrenca, Cássia confirma: “Minha vida está certinha demais”. Havia também o preço da fama, um clichê decerto, mas que descreve a terrível perda de privacidade que costuma acompanhar o êxito.

A parte final acompanha a luta pela guarda de Francisco, filho único da cantora. Ela havia manifestado em vida seu desejo de que o menino ficasse com Eugênia, que o havia criado. Mas o avô, pai de Cássia, tenta obter a guarda. Em decisão avançada para tempos moralmente tão regressivos, a Justiça decide que Chicão, como chamavam o garoto, deve ficar com Eugênia e não com um avô que lhe era indiferente.

Um bonito filme, sem dúvida.

Homenagens

O Fest Aruanda homenageou dois atores neste fim de semana – Daniel de Oliveira e Nanego Lira. Daniel é protagonista de Sangue Azul, longa de Lírio Ferreira que passou fora de concurso em João Pessoa. Nanego, que participou de vários filmes e séries da Globo (entre elas, Vidas de Maria, de Luiz Fernando de Carvalho) faz parte da incrível família Lira, da Paraíba. Um clã de atores e atrizes, como Soia, Bertrand, Buda, todos profissionais de ponta. Está no DNA.