O charme do Lido
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O charme do Lido

Luiz Zanin Oricchio

16 de setembro de 2012 | 20h21

Parte dos fundos do velho Cassino da era fascista

 

 

Quando você ouve falar em festivais de cinema (há um em cada cidade, a cada dia do ano), é preciso saber que o de Veneza foi o primeiro evento do gênero no mundo. O pioneiro.

Sua primeira edição foi em 1932, com a Itália sob o regime fascista de Benito Mussolini. Portanto, o festival, cujo nome completo é Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, tem exatos oitenta anos de idade e cumpriu, neste 2012, sua 69 edição. Por que a disparidade entre número de anos e de edições ? Porque, no início, a mostra era bienal. E também foi interrompida durante os anos da guerra.

Aliás, a Mostra faz parte de uma entidade mais ampla, a Biennale di Venezia, que agrega manifestações de dança, teatro e artes plásticas, além do cinema. É um ente importantíssimo no quadro da cultura italiana.

A outra coisa a saber é que o Festival de Veneza não se realiza exatamente na Veneza histórica, aquela dos canais, das gôndolas, da Praça São Marcos e da Ponte dos Suspiros, cartões postais da Itália que fazem da cidade dos Doges um dos destinos turísticos mais procurados.

O festival fica no Lido, uma ilha comprida como o mapa do Chile, de 18 quilômetros e extensão e fininha, que dista uns 10 minutos de vaporeto da Praça São Marcos. Se você desce no aeroporto Marco Polo, o percurso ao Lido é maior e leva uns 40 minutos. De barco, óbvio.

No Lido montou-se a estrutura do festival. O antigo Cassino (o Casinò), um exemplar da pesada arquitetura fascista, quadradona, é a sede do festival, o seu centro nervoso. Em seus três andares distribuem-se as salas de imprensa, a de entrevistas coletivas e toda a burocracia do evento. Fervilha de gente durante os 11 dias de festival e permanece vazio o resto do ano. Há também no Cassino duas salas de cinema. As outras, maiores, alojam-se ao seu lado. A Sala Darsena, desconfortável, porém de boa técnica de som e imagem, é onde se dão as sessões de imprensa e tem uns 1500 lugares. Ao seu lado, a Sala Grande faz jus ao nome e abriga as sessões oficiais, de terno e gravata e mulheres de soirée. As celebridades chegam a ela pelo tapete vermelho, que simboliza o glamour do festival.

Falta dizer que existe, em frente ao Cassino, um estranho e enorme buraco, agora coberto, mas ainda assim incômodo. O que aconteceu? Faz alguns anos, sentindo a necessidade de construir um novo Palácio do Cinema, a direção do festival embarcou num ambicioso projeto. Depois de idas e vindas, falta de dinheiro, polliticagens, etc, as obras começaram. Quando foram colocar as fundações do novo Pallazzo, encontraram amianto, resto de antigas construções e hoje material banido por seu caráter tóxico. Na impossibilidade de eliminar o amianto, as obras foram interrompidas – parece que para todo o sempre – e o buraco lá ficou, como símbolo da incompetência e da falta de planejamento. “O que faremos com o buraco? Vamos tapá-lo”, declarou, com todas as letras, o presidente da Bienal, um septuagenário de ar aristocrático chamado Paolo Baratta.

Esses desarranjos são sinais evidentes, metáforas de um estado de coisas crônico: o Lido não tem condições de abrigar um evento desse porte. De 1932 para cá, o festival cresceu muito. Atrai gente de todas as partes do mundo, entre os quais mais de 3 mil jornalistas credenciados. Essas pessoas precisam ver os filmes, dispor de infraestrutura para realizar seu trabalho, fazer entrevistas e ter acesso à internet, e também necessitavam ser hospedadas e nutridas.

O Lido não comporta nada disso. Existe um pequeno número de restaurantes, que não dão conta do afluxo extraordinário de clientes durante a Mostra. A rede hoteleira é ínfima. Além de hotéis de luxo como o Excelsior e o Cipriani (que fica em outra ilha na laguna), existe uma série de pequenos “albergos”, de duas ou três estrelas, que cobram preços de hotéis de luxo. Não é difícil encontrar diárias de 200 ou 300 euros em hotéis pelos quais, no Brasil, se pagaria, digamos, 80 ou 100 reais a noite. Multiplique o euro por 2,50 e você terá ideia de quanto custa se hospedar no Lido durante a Mostra. Passado o festival, os preços desses hotéis despencam para 60 ou 70 euros por dia.

Esses problemas de infra-estrutura parecem longe de alguma solução. A cada ano as autoridades dizem que vão tirar algum projeto da gaveta, mas nada acontece. Faz alguns anos, um prefeito de Veneza bolou o plano mirabolante de ancorar nas costas do Lido navios-hotéis para abrigar os convidados sem teto. A ideia, claro, não vingou.

O Festival de Veneza não é tão bem organizado como o de Berlim, ou tão comercial como o de Cannes, seus dois concorrentes europeus. Nem é tão voltado ao mercado, como o de Toronto, que agora o ameaça do outro lado do Atlântico porque as datas coincidem e os os americanos estão dando preferência aos canadenses. Mas, com tudo isso contra, Veneza ainda é insubstituível. Para a cidade, o evento é precioso porque, apesar das deficiências, injeta dinheiro considerável na economia. Hoteleiros, donos de restaurantes, alugadores de bicicletas, vendedores de sorvete e pizza – todos lavam a alma durante esses 11 dias de Mostra. Capitalizam-se para os tempos das vacas magras. Para os críticos e apreciadores do cinema de autor, também é fundamental, pois é para cá que ainda vêm os filmes mais desafiadores e estimulantes.

Há os problemas logísticos para a cidade.

O Lido faz sentido durante o festival e os meses quentes. Suas praias, logo em frente ao Cassino, são muito procuradas. Veem-se nelas as barraquinhas que os europeus alugam durante a temporada, para trocar a roupa e passar o dia. Em frente ao mar fica o mitológico Hotel des Bains, que todo cinéfilo digno desse nome sabe que foi locação para Morte em Veneza, de Luchino Visconti, baseado na novela de Thomas Mann. O Les Bains está fechado, em reforma. Quando reabrir será como uma espécie de ressort.

Quando chega o inverno, tudo acaba. O Lido vira um deserto.

Com todos esses desafios, tratados como se fossem doenças crônicas com as quais se pode conviver, o Festival de Veneza ainda mantém o seu encanto. Um charme decadente, digamos, mas irresistível.

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