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O Céu sobre os Ombros

Luiz Zanin Oricchio

18 de novembro de 2011 | 14h15

A transsexual Evelyn, o hare krishna Bogus e o escritor angolano Lwei Bakongo são os personagens de O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges, vencedor do Festival de Brasília de 2010.

São personagens diferentes, escolhidos entre dezenas de outros candidatos. O que o diretor viu neles? Talvez, num primeiro momento o que lhe pareceu a diferença radical em relação à norma. Uma transsexual, formada em psicologia, professora universitária e prostituta. Outro, hare-krishna, líder da Galoucura, a fanática torcida organizada do Atlético Mineiro, cozinheiro de restaurante natural e atendente de telemarketing. O terceiro, um angolano com ambições literárias, avesso ao trabalho e pai de filho deficiente. Não é gente que se encontra todo dia.

São histórias incomuns, certamente, e esse fato deve ter pesado na hora da seleção. Mas, mais do que o conteúdo dessas pequenas biografias, parece ter contado o modo como os personagens se dispunham a interpretá-las. Isto é, vivenciá-los para o outro, no caso o diretor, ou mais ainda, o olho anônimo da câmera.

O que faz com que pessoas se “abram” diante de uma câmera e deem uma interpretação tão viva de si mesmas? Em especial quando se trata de pessoas que tão obviamente se prestariam ao exercício da intolerância alheia e da chacota preconceituosa? Possivelmente, a confiança no diretor. A fé de que suas vidas não seriam falsificadas, deturpadas ou usadas contra elas. Confiança de que poderiam interpretá-las (quer dizer, ficcionalizá-las) de maneira livre e tendo por testemunho ouvidos e olhar acolhedores.

Apenas dessa forma é possível chegar a um resultado como o de O Céu Sobre os Ombros, no qual a força reside tanto na distância como na proximidade que sentimos em relação aos personagens. São diferentes de nós; mas também tão iguais a nós… A maneira como são tratados faz com que esses personagens, ao longo do filme, percam qualquer pecha de exotismo que de início poderiam ter. Reúnem-se no traço comum de humanidade que nos une.

É esse o procedimento que poderíamos chamar de autoficção, já que o termo, embora impreciso, está na moda. Ou seja, a maneira como tento ver a mim mesmo, não através de um espelho que me refletisse com exatidão sempre problemática, mas através de um personagem de mim mesmo que vou interpretando. E de tal modo que se aproxime, tanto quanto possível, dessa verdade de mim mesmo, no limite inacessível. É, portanto, um trabalho de construção de si e não de reflexão – com tudo o que este último termo conota de mecânico e de exatidão ilusória.

(Caderno 2)

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