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O Céu de Suely

Luiz Zanin Oricchio

18 Novembro 2006 | 10h44

O primeiro aspecto que seduz em O Céu de Suely é a idéia engenhosa. A moça que volta para sua cidadezinha natal depois de uma temporada talvez não muito feliz em São Paulo. E lá fica à espera do marido, que lhe deixou um filho de lembrança. Depois, a descoberta de que precisa fazer alguma coisa para dar sentido à sua vida e a descoberta de que precisará ser criativa para colocar o plano em prática. O que quer dizer tudo isso, você terá de descobrir sozinho, leitor.

O que dá para falar, isso sim, é que a tal idéia engenhosa se traduz num trabalho de grande delicadeza, um filme de alma feminina que leva em conta as aspirações e desejos da sua protagonista, magnificamente interpretada por Hermila Guedes.

Há um certo cinema brasileiro que vem se aproximando de um rigor maior de concepção artística. Por exemplo, Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, nosso candidato ao Oscar, é dessa linhagem. Tom menor, respeito pelas lacunas da narrativa, tratamento fotográfico discreto – tudo isso também presente em O Céu de Suely. Depois de uma época de espalhafato narrativo, quando o importante era mostrar que também sabíamos filmar, que o cinema brasileiro podia ter grandes planos-seqüências, usar gruas, registrar pôr-do-sol na contraluz, usar música em excesso, etc., chegou a vez de um cinema mais discreto.

Talvez mais seguro de si, em busca ainda de uma afirmação de estilo, mas já consciente de que este é um processo e não uma finalidade em si mesma. Numa comparação: seria como aquele novato que usa palavras bonitas achando assim que estará escrevendo bem. E, anos depois, descobre que são as palavras mais simples as que têm maior significado. Não é fácil chegar a ser um Graciliano Ramos ou um Carlos Drummond de Andrade. E, nesse sentido, o cinema brasileiro ainda tem um longo caminho a andar. Mas filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus e O Céu de Suely já são exemplos promissores nessa direção.

O interessante é ver o caminho feito pelo próprio diretor, Karim Ainouz. Seu Madame Satã era um trabalho maravilhoso, mas que também exibia um certo excesso, um barroquismo que talvez atendesse a necessidade de filmar ‘rente à pele’ do personagem mas que nem por isso deixava de passar um pouco a fronteira do excesso. Em O Céu de Suely tudo se atenua, como se conformando à feminilidade da personagem. E, atenuando-se, parece mais forte.