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O Cavaleiro das Trevas

Luiz Zanin Oricchio

17 de julho de 2008 | 13h39

Parece ser inevitável referenciar Batman – O Cavaleiro das Trevas ao personagem do Coringa, último trabalho do ator Heath Ledger, morto em janeiro de uma overdose de medicamentos. Inclusive porque, de maneira algo oportunista, o ex-Coringa e extraordinário ator Jack Nicholson andou dizendo que interpretar esse personagem pode ser um mergulho de tal profundidade no que a pessoa tem de pior que algumas não resistiriam à prova. Mas talvez seja preferível achar que Ledger era apenas um grande profissional e que, sob direção de Christopher Nolan, tenha entendido de fato o que se esconde sob essa figura tragicômica da HQ. Dessa compreensão, tirou uma interpretação de antologia, e que, com sua morte, fica sendo seu legado.

Mas não são apenas as atuações de Ledger, como vilão, ou de Christian Bale, como herói – o milionário Bruce Wayne, que se transforma em Batman para proteger Gotham City – que fazem a força desse filme. Essa força vem da idéia, tanto conceitual como visual, que o orienta. Nolan entende que pode existir uma luta do bem contra o mal, mas que retratá-la sem nuances a torna ridícula ou anêmica. Assim, as ambigüidades, e alguns desdobramentos trágicos, é que darão o tom a esse filme dark, cheio de sombras e cantos escuros, tal como alguns exemplares do melhor cinema noir.

Essas seqüelas da luta, os efeitos colaterais do duro remédio da justiça, se fazem sentir não apenas sobre o protagonista, mas sobre alguns personagens secundários, tais como o procurador Harvey Dent (Aaron Eckhart), justamente aquele que desencadeia a guerra ao atingir a Máfia que domina Gotham. Há links interessantes entre o que aí acontece, como ficção, e alguns dilemas da sociedade moderna. O principal deles: como combater o crime de maneira eficaz sem, com isso, se utilizar de técnicas que são elas mesmas criminosas? Esse debate ético aparece em filigrana no filme.

Outro debate, este à flor da superfície, só ficará explícito lá pelo fim da trama e diz respeito à própria essência dessa narrativa. A saga de Batman é vista como a história de um herói, alguém que se devota à proteção de uma sociedade mesmo com prejuízo dos seus interesses particulares, mesmo arriscando a pele. Mas o que de fato é um herói? E que tipo de herói as sociedades necessitam? Será que todas precisam do mesmo tipo de herói? Ou, como dizia Brecht, pobre é o país que necessita deles?

Difícil dizer se Nolan, como diretor e roteirista (ele co-assina o roteiro com o irmão, Jonathan), tenta dialogar com um relato famoso de Jorge Luis Borges Tema do Traidor e do Herói. O texto, de no máximo umas três páginas, serviu como inspiração a Bernardo Bertolucci em A Estratégia da Aranha, que reflete sobre a questão do heroísmo e da traição em tempos difíceis. Talvez para tornar seu relato mais universal, o argentino Borges resolveu situar a trama na Irlanda do século 19. Imagina uma revolta de libertação que falha sempre no último momento. Há um traidor entre eles. O chefe da rebelião incumbe alguém de encontrar o culpado. Este cumpre a tarefa – o traidor é o próprio Kilkpatrick, chefe dos revoltosos. O nome do investigador? Pode ser apenas uma coincidência, mas Borges chama o personagem de James Nolan, mesmo sobrenome do diretor de Batman.

Enfim, há essa torção borgiana, na qual o herói pode ser o traidor e o traidor, herói. Um mundo de sombras, ao avesso, sem qualquer certeza, e que, Bertolucci, em seu filme, utiliza para mergulhar no núcleo fascista da Itália profunda, essa mesma que apoiou Mussolini e hoje vota em Berlusconi. São os mistérios da política tratados num raciocínio em abismo que, compreensivelmente, não é desdobrado até o fim em Batman que, afinal de contas, é um blockbuster. Portanto, ainda que muito bom, precisa respeitar certas regras de diálogo com o público.

Mesmo assim… Poucas vezes o cinemão se dispôs a exibir uma simples aventura, uma história policial na superfície que, no fundo, discute alguns subterrâneos do espírito humano. Esse Batman de Christopher Nolan é o que deveria ser o cinema de grande público se não se tivesse infantilizado tanto desde o fim da década de 1970: algo que serve como entretenimento de primeira, mas leva, ao mesmo tempo, à reflexão madura sobre a nossa condição.

(Caderno 2, 17/7/08)

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