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O cartola e a arte

Luiz Zanin Oricchio

13 de março de 2012 | 09h09

Amigos, no day after da renúncia de Ricardo Teixeira, permitam-me falar um pouco de futebol. De futebol do bom, de alta qualidade. Em seguida, volto ao cartola. Acontece que, por um desses caprichos da vida, fui um dos privilegiados que estiveram na Vila Belmiro quarta-feira passada e testemunharam o recital de Neymar, aqueles dois gols de sonho. Em especial, o segundo gol, uma pintura divina, digna de receber não uma, mas duas ou três placas comemorativas na Vila famosa.

Bem, não vou me deter sobre o gol, já descrito e cantado em verso e prosa, repetido inúmeras vezes pela TV, interpretado, dissecado e dividido em seus fragmentos, em slow motion, para que pudesse ser compreendido. O próprio Neymar, inquirido, respondeu que apenas avançou, foi driblando e se livrando de quem vinha pela frente e, como última solução diante do goleiro que saía, deu o toquinho por cima. Assim. O gênio encontra a simplicidade lá onde os mortais se perdem em explicações. Ele sabe, sem o saber conscientemente.

Ao meditar sobre o gol, me lembrei do que o escritor João Antonio falava sobre o mitológico jogador de sinuca Carne Frita: “o incrível não era o que o Frita fazia; incrível era ele acreditar que fosse capaz de fazer aquilo”. Assim é Neymar – topete não lhe falta, no sentido próprio e no figurado.

A experiência de ver este gol no estádio foi algo de muito especial. Um gol desse tipo provoca uma reação diferente nas pessoas. Vi estranhos se abraçarem como se fossem conhecidos de longa data. Vi mulheres e marmanjos chorando. Vi uma confraternização entre pessoas, uma onda de solidariedade como se todos, de repente, percebessem que o mundo era bom e dele faziam parte. Uma vaga de emoção que já presenciei em grandes comoções nacionais, ou então diante de alguma coisa muito bela, a grande música, um impacto estético como se tem na primeira vez em que se ouve a Sinfonia Coral de Beethoven.

Exagero? Não creio. Os que amam o futebol esperam tanto pela vitória como por esses momentos indizíveis de beleza que nos fazem perdoar anos a fio de jogadas toscas e partidas sem graça. Um instante de luz nos redime de anos de trevas. Fomos criados nisso, nós, brasileiros. Assim aprendemos a amar nossos clubes e também a nossa seleção. Os que se lembram ainda da conquista de 1970 (para não falar das de 1958 e 1962) sabem do que estou falando. O amor do brasileiro funda-se nessa tradição do jogo bonito, bem jogado, capaz de produzir esses momentos de iluminação.

No balanço do longo reinado de Ricardo Teixeira, que mescla acusações de corrupção a feitos como duas conquistas de Copas (1994 e 2002), fica um passivo, para mim seu pior legado: ter se despreocupado do futebol jogado no Brasil e transformado a seleção em uma multinacional lucrativa, alheia ao seu estilo e distante dos seus torcedores. O brasileiro deseja o que viu na Vila: arte e identidade. Esse, o sentido profundo do nosso jogo, ignorado por Teixeira.

(Coluna Boleiros)

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