‘O Capital’, ou o verdadeiro poder do nosso tempo
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‘O Capital’, ou o verdadeiro poder do nosso tempo

Luiz Zanin Oricchio

16 de outubro de 2013 | 10h12

 

O que surpreende em O Capital não é tanto o conteúdo crítico do filme, afinal dirigido por Costa-Gavras, autor de Z, Estado de Sítio, Missing, O Quarto Poder e outros. Espantosa mesmo é a disposição com que dirige este homem de 80 anos. Faz de O Capital um thriller (social e econômico) tenso, incisivo, sem barrigas nem pontos mortos. Como em seus outros trabalhos, é uma obra de conteúdo social que se assiste como a um filme de suspense. Se em filmes anteriores, Costa-Gavras investia contra ditaduras ou a imprensa sensacionalista, o alvo, agora, é o capital especulativo.

O personagem principal é Marc Tourneil (Gad Elmaleh), um  executivo. Com a doença do presidente de um grande banco francês (o fictício Phênix), ele ocupa o cargo. Mas logo desconfia de que foi lá colocado por seus pares mais velhos por alguma razão misteriosa, possivelmente escusa. Sente-se um marionete. Num ambiente (habilmente retratado por Costa-Gavras) em que a lei é cada um puxar o tapete do outro para conquistar vantagens, cabe apenas perguntar o que existe por trás da promoção. Essa é a questão a guiar a trama.

Talvez mais importante do que ela seja esse panorama interno do modo de funcionamento do capitalismo financeiro contemporâneo. Não por acaso, o greco-francês Constantin Costa-Gavras toma como título o da obra máxima de Karl Marx. Como para o filósofo também para o cineasta não se trata tanto de demonizar pessoas, mas de entender razões internas do modo de funcionamento capitalista – e das consequências que ele traz para as pessoas.

Por exemplo, Marc, para satisfazer aos acionistas, é obrigado a fazer cortes brutais de pessoal. Tudo é contabilizado. Se os cortes atingirem sete mil funcionários, as ações sobem tanto por cento. A meta visada prevê 10 mil demissões, e assim é feito. Da mesma forma, a justificativa já está pré-fabricada. Demite-se 10 mil para salvar a empresa e, portanto, o emprego de outros 90 mil, e blábláblá. Ninguém acredita nisso, muito menos quem fala, não passa de papo de RH, tudo é apenas um teatro, somente um jogo no qual vidas são sacrificadas, gente vai à miséria, muitos perdem suas economias, mas tudo faz parte da “ordem natural das coisas”.

O curioso é que Costa-Gavras não assume o tom indignado da denúncia ingênua. É quase frio e matemático em sua demonstração do absurdo da especulação financeira e das pessoas que dela vivem. Com exceção de um ou outro momento mais didático, deixa que o espectador tire suas conclusões. Mesmo seu personagem principal não deixa de ser ambíguo e conflitado. Marc, pelo que ficamos sabendo, foi um garoto brilhante, com grande futuro pela frente. Decidiu enriquecer. Mas quanto dinheiro é o suficiente? Não existe nenhum limite, porque acima de certa quantidade ele se transforma em poder, e a fome de poder é, literalmente, impossível de ser saciada. Não é mais dinheiro – é capital.

Devotar-se ao capital não sai de graça – em sua obra, muito mais citada do que lida, Marx fala no poder de corrosão do dinheiro. Bem casado, Marc arrisca-se a perder a esposa. Envolve-se com uma modelo deslumbrante (Liya Kebede) apenas porque deseja possuí-la (no sentido literal e no figurado). Mostra uma queda por uma jovem economista francesa (Céline Sallette), disposta, junto com ele, a desvendar o mecanismo desse sistema kafkiano que está levando o mundo à bancarrota. Mas há um abismo entre Marc e Marx. Se o filósofo viveu no limite da miséria, e ajudado por Engels, para decifrar o sistema e expor suas contradições, o banqueiro surfa na crise e dela tira o melhor proveito.

Nem por isso Marc deixa de ser uma espiral de contradições. Quando assume, tenta frear práticas menos ortodoxas, como lavagem de dinheiro. Mas cedo verá armadilhas espalhadas em seu caminho – a principal delas pelo ardiloso representante de um fundo norte-americano, com sede em Miami, vivido por Gabriel Byrne. Seu personagem, Dittmar, é o próprio Mefisto. No começo ensaia-se pintar uma diferença entre o velho capitalismo europeu, “ético”, e o vale-tudo norte-americano. Para se concluir que, na prática, o capitalismo é o mesmo e um só em todo mundo. Aliás, numa festa de família, Marc ironiza um tio esquerdista dizendo que eles, os financistas, haviam conseguido algo que fora tentado em vão por gerações de revolucionários de esquerda – a internacionalização. No caso, do capital, da produção, dos mercados. O capital paira acima das pessoas, dos países e dos governos.

Nesse filme maduro, e feito para um público em geral esquecido pelo cinema, o adulto inteligente, Costa Gavras mostra a antiga força do seu cinema. Sem ser panfletário, vai direto ao alvo e não mostra qualquer receio em afrontar o verdadeiro poder do nosso tempo.

Cotação: ótimo

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