O caçador de transcendência
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O caçador de transcendência

Luiz Zanin Oricchio

26 de julho de 2013 | 20h34

Gostar ou não do novo Malick – To the Wonder (Amor Pleno, no Brasil) é o de menos. Gostamos (ou desgostamos) de uma obra pelos mais variados e às vezes inconfessáveis motivos. Críticos não são juízes de filmes e o melhor trabalho que podem executar é fazer circular algumas ideias possíveis sobre a obra. Apenas isso.

Agora, goste-se ou não, parece inegável que, em Amor Pleno, Terrence Malick abre inusitadas possibilidades de leitura, e de sensibilidade. Longe de ser perfeito, é, no entanto, um filme rico, e vivo. É preciso acercar-se dele. E nele ver o desdobramento de uma busca espiritual de A Árvore da Vida, esta sim uma obra-prima.

Se tomarmos a linha narrativa de Amor Pleno teremos apenas uma história banal. Há o amor entre Marina(Olga Kurylenko) e Neill (Ben Affleck). Eles se conhecem na França, mudam-se para Oklahoma. Ela precisa voltar para a França e, em sua ausência, ele reaproxima-se da moça que conhecera desde garoto, Jane (Rachel MacAdams). O amor dá voltas, muda de objeto e pode flutuar entre um e outro. Em paralelo, há um padre estrangeiro, Quintana (Javier Bardem), em crise de vocação diante do sofrimento do mundo.

Mas tomar o filme com base da linha narrativa é como tomar uma cédula por seu valor de face, apenas. É na maneira como filma que Malick coloca em cena o seu pensamento. Não se trata de uma tese, ou de um proselitismo, mas de uma busca. De certa forma, ele se expressa mais claramente pela dúvida atormentada do padre: “por que o mal do mundo, por que a miséria das pessoas, se eu acredito num Deus que é todo bondade?” .

Essa angústia teológica se desdobra em outra: o que é o amor? Por que ele nos toma de maneira total e avassaladora? Por que o amor por esta e não por aquela pessoa? E por que o amor, que parecia havia pouco tão totalizante, tão completo e exigente, de repente esmaece, deixa de existir, ou volta-se para outro objeto, para outra pessoa?

Quer dizer, Malick joga na dupla tecla do amor divino e do amor profano. Não os separa. Pelo contrário, toda a dialética da obra é construída de modo a entrelaçá-los, a subordiná-los um ao outro, de modo que sejam apenas modalidades de expressão de um amor único. Não se pede a ninguém, tampouco, que partilhe semelhante tese, um panteísmo amoroso, por assim dizer. Mas é o caminho do autor, de sua busca, de suas inquietações.

Daí que a expressão desse pensamento se celebre em imagens e sons de uma beleza extraordinária, nem sempre coordenados entre si. Por vezes, é como se as vozes falassem por si sós, enquanto a câmera constrói (e não apenas registra) as imagens da maravilha do mundo – não esquecer que o título original fala em “Wonder”. Na maravilha, ou no “encantamento” do mundo, de que falava Guimarães Rosa.

Nesse mundo laico, desencantado, objetivo, Malick é um caçador de transcendência.

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